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Crise “Padrão FIFA”



Por Enzo Kfouri 

       Na última quarta-feira, em uma conferência ocorrida em Lima, Peru, entre 13 e 17/09, o Comitê Olímpico Internacional (COI) acabou elegendo pela primeira vez na história duas cidades-sede em uma mesma cerimônia, “premiando” Paris (França) com os Jogos Olímpicos de 2024 e Los Angeles  (Estados Unidos) com os de 2028. Para muitos essa mudança na escolha ou no critério de seleção pode ter passado despercebida, como algo sem muito impacto, mas na realidade o fato somente comprova a acentuada crise que a entidade vive. 
Com escândalos de corrupção assombrando a organização, sendo o mais recente relacionado à compra de votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede em 2016, o COI tenta uma alternativa para que o maior evento esportivo não suma do mapa devido à falta de interesse em recebê-lo.

Thomas Bach  ao lado da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e do prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti. Fonte: Mariana Bazo/Reuters

É verdade que não são somente as descobertas de irregularidades na instituição que acabaram com o interesse de governos e das populações de possíveis países interessados em realizar as competições, pois essa falta de vontade já vem de alguns anos para cá. Reformas milionárias, construção de estádios e arenas que não serão usados depois do evento (os chamados elefantes brancos), superfaturamento de obras, gastos além do previsto, ascensão dos ataques terroristas pelo mundo e pouco retorno financeiro são apenas alguns dos fatores responsáveis.
Paris e Los Angeles eram as únicas candidatas a sediar os Jogos Olímpicos de 2024, após a desistência de Hamburgo (Alemanha), Roma (Itália) e Budapeste (Hungria). A cidade alemã formalizou a retirada do interesse devido ao resultado de um plebiscito, que acabou apontando que 51,7% da população era contrária à realização do evento na cidade, devido à expansão da crise de refugiados sírios e à propagação de ataques terroristas na Europa.
No caso da capital italiana, o motivo para a abdicação da candidatura se deu por complicações financeiras internas, sendo irresponsável, ao ver da prefeita Virginia Raggi, realizar competições tão caras, que iriam necessitar de investimentos altos, em uma das “cidades mais endividadas e ingovernáveis da Itália”.
Já em Budapeste, a razão decisiva para a saída da disputa foi o comprometimento do COI no pós-evento em 2016, como apontam os jornais locais. As notícias e imagens das instalações do Rio de Janeiro depois dos jogos, principalmente do Maracanã, causaram um impacto muito negativo entre os políticos, que optaram, junto com a população húngara, por não sediar o evento.
Pode ser muito cedo para Budapeste falar sobre o legado da Rio 2016, afinal foi há pouco mais de um ano, mas certamente não é o caso de Atenas 2004. As olimpíadas sediadas na capital da Grécia marcaram a volta do evento para casa, ou como dizia seu slogan, “Bem vindos de volta”. Entretanto o tempo foi cruel para as instalações locais que, após uma crise que abalou o país em 2008, se encontram totalmente abandonadas e sem manutenção. O esporte tampouco se desenvolveu, mostrando que o retrospecto em 2008, 2012 e 2016 foi inferior ao do torneio organizado em casa.
Chafariz totalmente seco à entrada da antiga aldeia olímpica dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Fonte: Getty Images
Desde o processo de escolha para 1988, quando a capital coreana Seul venceu a cidade japonesa de Nagoia, o número de candidaturas não era tão baixo. Assim, com receio de que a cidade que saísse sem 2024 perdesse o interesse em concorrer pela edição seguinte, o Comitê resolveu eleger duas vencedoras, uma para a 33ª e outra para 34ª olimpíada.
A escolha de Paris para a sucessora de Tóquio foi tomada por questões históricas e logísticas. A capital da França não recebe o torneio desde 1924, havendo uma volta da competição para a cidade após um século. Além disso, a Vila Olímpica estava planejada para 2024, não podendo esperar por mais 4 anos. Com isso, será dada uma compensação pelo COI de US$1,8 bilhão para que Los Angeles espere por um ciclo olímpico a mais.
Ao que tudo indica, a instituição que rege o esporte olímpico conseguiu resolver o problema da escassez de interessados por pelo menos 11 anos e terá mais três olimpíadas para mostrar às outras cidades do mundo que vale a pena receber um evento de tal magnitude. Para isso, o COI deve repensar o processo de escolha e as exigências que faz a respeito das instalações do evento, para que os custos não sejam tão altos ao governo local. Deve se discutir também o legado olímpico, uma vez que a exemplo de Atenas 2004, sediar os jogos não significa desenvolvimento da cidade ou do esporte local. 

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