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A Eterna Luta por Reconhecimento

Por Enzo Kfouri

Pouco patrocínio. Baixos salários. Quase nenhuma visibilidade e atletas guerreiras que dão de tudo pela tal camisa canarinho. Até aí, nenhuma novidade, infelizmente nada além da triste realidade de sempre. Porém, como se não bastassem os velhos problemas que assombram o futebol feminino, o futuro da modalidade se encontra mais uma vez ameaçado com decisões incoerentes de dirigentes da CBF, que a comandam como uma empresa, e não como uma confederação esportiva.

Na semana passada, uma onda de pedidos de demissão abalou o esporte no país. Grandes nomes como a meio-campista Fran, a lateral Rosana, a zagueira Andreia Rosa, a lateral e meia Maurine e a atacante Cristiane resolveram se desligar da seleção brasileira após a demissão da técnica Emily Lima.

A treinadora estava no comando desde outubro de 2016, após a demissão de Oswaldo Alvares, o Vadão, depois de ele não conseguir alcançar o pódio das Olimpíadas do Rio. Lima obteve, em 13 partidas disputadas, 56,4% de aproveitamento (sete vitórias, um empate e cinco derrotas), e vinha pleiteando mudanças e melhoras para o esporte.

Emily Lima (direita) ao lado da atacante Marta (esquerda). A técnica foi demitida com apenas 11 meses de trabalho. Fonte: Lucas Figueiredo/CBF

Segundo uma entrevista à Folha de S. Paulo, a técnica informou que Marco Aurélio Cunha, o coordenador de futebol feminino não foi favorável à sua contratação desde o início: “Não tenho o perfil que ele queria, sou uma pessoa correta e adoro trabalhar. Você ouvir de um coordenador de uma modalidade que não é bom trabalhar demais é para se desanimar. Foi o que ouvi”, conta Lima.

Após a divulgação da demissão da técnica, as jogadoras, que sempre tiveram uma boa relação com ela, resolveram se manifestar, resultando no desligamento de várias atletas do time principal. Em entrevista ao Sportv, a atacante Marta diz que a decisão foi muito precipitada: “A minha opinião é a mesma que eu tinha quando trocaram o Vadão, a gente precisa de tempo para trabalhar. Não dá para fazer acontecer os resultados de um dia para o outro no futebol feminino, mas a gente sabe como nossa cultura no Brasil é baseada em resultados.”

Já Formiga, jogadora aposentada da seleção, também em entrevista ao Sportv, diz que Emily estava progredindo e que não vê como sua saída pode melhorar o esporte: “(A treinadora) estava (sic) brigando pelo grupo, por coisas boas, querendo o melhor, para realmente obter resultados e (A CBF) chega neste momento, vai e corta (a Emily). O que realmente (a CBF) quer? Quer a evolução ou não? Eu acho que não”.

Ao ver da lateral Rosana, em entrevista ao Estado de São Paulo, há um sentimento de impotência por parte das jogadoras: “Sinto que as atletas não têm voz, e querer expor um ponto de vista mexe com a vaidade e o ego de muitos”.

Em nota, a CBF disse que “A Confederação Brasileira de Futebol entende que a decisão de algumas jogadoras em não atuar mais pela seleção brasileira feminina é uma questão de ordem pessoal e que deve ser respeitada”. No fim, a entidade agradeceu a todas pelos serviços prestados à equipe nacional. 

A atacante e medalhista olímpica Cristiane se aposenta da seleção após demissão da treinadora. Fonte: André Mourão/O Dia/ NOPP

Entretanto, o mais interessante é o fato de Vadão, técnico anterior à Emily, ter sido chamado para reassumir o cargo. Mais uma vez, a exemplo da recontratação de Dunga ao comando da seleção masculina após a trágica eliminação na Copa do Mundo de 2014, a CBF mostra não estar comprometida com a real melhora do futebol no país e estar presa a dirigentes que não analisam o que é melhor ao esporte, mas o que é melhor para o mercado.

Contudo, aos que acreditam se tratar de machismo, vale lembrar que o mesmo tratamento foi dado ao técnico Renê Simões, que comandou o time por seis meses e atuou na olimpíada de Atenas 2004, na qual o time se sagrou vice-campeão. Na época, Simões estava lutando por mudanças no modo de praticar futebol e exigia comprometimento de todos a sua volta, o que muitos dizem que perturbou a confederação esportiva. Apesar de ser a primeira treinadora mulher a comandar uma seleção principal de futebol, Emily não acredita ter sido vítima de preconceito: “Eu incomodava muita gente lá em virtude da minha preocupação. Eu ligava para alguns setores dentro da CBF e às vezes não atendia, mas não houve machismo”.

Técnico Renê Simões após conquista da prata em Atenas 2004. Técnico teve o mesmo destino de Lima. Fonte: Reuters

Assim, o que se pode de fato questionar não é a demissão como forma de discriminação de gênero, mas como uma divergência de interesses em relação a uma entidade que deveria ser pró esporte, mas que tornou a administração de uma prática desportiva um meio de ganhar dinheiro e que, como vemos na maioria das instituições esportivas do país, está afundada em escândalos de corrupção e instabilidade financeira. 

Não se pode inocentar o povo brasileiro da culpa, todavia. Um dos fatores para o futebol feminino não se desenvolver, assim como vários outros esportes no país, é a falta de interesse dos espectadores. No Brasil, o segmento masculino da modalidade é muito forte e desde cedo somos doutrinados pela família a torcer por algum time. Corinthians, Palmeiras ou São Paulo? O problema é que o brasileiro se esquece dos outros esportes e não apoia outras atividades. É triste que, mesmo com a passagem de uma olimpíada pelo país, a audiência e a visibilidade continuem concentradas em apenas um gênero de uma modalidade. Apesar de mais uma crise, a modalidade feminina vai resistir; porém, novamente, quem paga pela má gestão de instituições nacionais são as atletas que tanto se esforçam. Mas você, caro leitor, também é o culpado.

2 comentários

  1. Muito legal falar sobre as meninas do futebol. Apesar de já terem conquistado tantas coisas, é melancólico perceber que, muitas vezes, estão jogando em um estádio vazio. Não sei se nós, espectadores somos assim tão culpados. Creio que se houvesse um pouco mais de divulgação, organização e, principalmente, mais cuidado com a forma como o futebol se apresenta, possivelmente existiriam mais pessoas interessadas em assistir aos jogos.

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  2. Mauricio, concordo com você! Muito triste ver como elas batalham diariamente e quase não ganham nenhum reconhecimento! Também acho que falta interesse da mídia em divulgar os eventos, mas é aquele velho dilema: o povo não prestigia porque não há divulgação ou não há divulgação porque o povo não prestigia?

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