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CRÔNICA: Sua mãe sabe que você assedia mulheres?

19 de março de 2018

Por Roberta Domingues

"Erosion"  Foto: Imani Diltz

Voltando para casa esse domingo, me deparo na rua com cinco caras parados do lado de um carro estacionado. Já é noite, e não tem muita gente passando. Está calor e por isso uso shorts. Mesmo acostumada com os olhares nojentos que sempre lançam, ainda me sinto exposta e vulnerável, então trato de apertar o passo.

Até que um dos caras grita "Ê lá em casa" e eu, ingenuamente, olho para trás. Minha resposta imediata foi falar "nossa, que desnecessário" bem alto. Mas agora que paro e penso, queria ter falado poucas e boas. Ou não. Sabe por quê? Porque mulheres morrem quando fazem isso.

Michelle levou pauladas na cabeça e ficou internada por quatro meses antes de morrer. Tatiane estava grávida quando levou cinco tiros e morreu na varanda da própria casa. Tiarah levou um tiro no rosto depois de falar para um homem parar de se esfregar nela. Tuğçe apanhou repetidamente na cabeça por um taco de baseball depois de defender duas adolescentes em um McDonald's, e ficou em coma por duas semanas antes de morrer. Esses são somente alguns exemplos de como não estamos seguras nas ruas, em restaurantes, e nem na nossa própria casa.


Foto: Imani Diltz

Quando penso na quantidade de assédio que nós mulheres sofremos todos os dias, não posso deixar de me perguntar: será que a mãe/esposa/irmã/amiga desses caras sabem que eles fazem isso? Imagino o que uma mãe faria se descobrisse o que seu filho faz na rua com outras mulheres. Que chamam de gostosa, não respeitam o espaço pessoal de cada um, que gozam em outras pessoas no transporte público, tiram fotos da calcinha de moças de saia, e ameaçam quem ousa responder. Que, na balada, pegam em meninas com força o suficiente para deixar marcas, forçam beijo, não sabem ouvir "não".

A violência -- tanto física quando psicológica -- contra a mulher é tão intrínseca na sociedade que, por algum motivo, homens se veem intitulados de tratar corpos alheios como bem entendem. Mas sabe o que me deixa mais confusa? É que, ao mesmo tempo que esses homens assediam mulheres nas ruas, fazem o maior escândalo quando alguém assedia a mulher deles.

Tudo bem assediar o outro, contanto que esse outro não seja minha propriedade.

Propriedade. Fala sério.


Foto: Imani Diltz

Também me deixa confusa que esse tipo de comportamento é incentivado nos meninos desde cedo; em contraste, para as meninas ensina-se a discrição. Acho que, em vez de falar para as meninas terem cuidado ao andar pela rua, seria melhor ensinar os meninos a não assediarem em primeiro lugar. Oras, se uma criança tem uma faca, é mais coerente tirar o objeto da mão dela do que ensinar as outras dez crianças como se defenderem.

Pergunte a todas as mulheres que você conhece, e tenho certeza que todas dirão que, em algum momento de suas vidas, foram assediadas -- em menor ou maior grau. Pode ser desde um "Ê lá em casa" até apertões na balada ou olhares desnecessários na rua. Agora, se você perguntar para os homens que conhece, também tenho certeza que dirão que "não, nunca, jamais assediei alguém na rua".

Coerência? Nunca nem vi.

Honestamente, queria dar algum tipo de solução para que isso não voltasse mais a acontecer. Infelizmente acho que no meu tempo de vida não vou ver o corpo da mulher ser respeitado, e não tratado como propriedade pública. Também acho utópico pensar que tal coisa deixaria um dia de existir.

Acho que só nos resta fechar a cara e rezar para que o cara que assovia para nós na rua não queira nos matar.

Ainda me sinto suja e violada.


Projeto "Erosion"

A repercussão de Pantera Negra e a representatividade

18 de março de 2018


Por Lara Sylvia

Pantera Negra: O filme do heroi africano já é a nona maior bilheteria dos EUA. Foto por: Omelete

O universo cinematográfico dos super-heróis sempre deixou a desejar na questão da representatividade de minorias, mas, felizmente, o cinema tem evoluído nesse quesito pouco a pouco. O filme Pantera Negra, lançado em fevereiro deste ano, se destacou pela quantidade de personagens negros e mulheres em papeis de grande importância e traz um ponto de vista diferente do que já foi mostrado pela Marvel até agora.

A história se passa em Wakanda, uma nação africana ficcional, um lugar que combina o passado e o presente com sua ancestralidade e tradições fortíssimas e a tecnologia mais avançada do mundo. Apesar de parecer mais um estereótipo da pobreza africana para quem vê a cidade de fora, Wakanda possui a maior concentração de Vibranium do mundo, o metal fictício já utilizado no escudo do Capitão América e no androide Visão.


Killmonger, o problemático vilão de Pantera Negra. Foto por: Omelete
  
O heroi Pantera Negra é, na verdade, o rei wakandano T'Challa que, após a morte de seu pai, precisa provar sua força como guerreiro e líder da nação. Porém, o filme surpreende e apresenta jornada dupla, já que a capacidade do vilão também precisa ser provada: Killmonger, como é chamado, levanta igualmente a problemática do racismo e do pertencimento cultural, fazendo com que a existência dele seja motivo de reflexão para todos e não uma presença maligna que deve ser combatida a qualquer custo.


A espiã Nakia e a princesa de Wakanda. Foto por: Omelete

A representação das mulheres negras wakandanas também é realmente bem feita no longa. As personagens de destaque, como a princesa e cientista Shuri, a espiã Nakia e a líder das Dora Milaje (a guarda real) Okoye, são independentes do rei T'Challa e tem suas vontades próprias e pequenos universos particulares muito bem construídas dentro da narrativa.

Mesmo tendo tão pouco tempo de estreia, o filme Pantera Negra, com seu humor inteligente (Shuri chamando o homem branco de colonizador, por exemplo, e fazendo ele se sentir desconfortável em sua nação) e sua trilha sonora incrível composta em sua quase totalidade por artistas negros, como  Kendrick Lamar e The Weeknd (que incluíram ritmos que lembra muito a África por si só),  já provocou uma imensa identificação em milhares de pessoas, principalmente crianças negras, que se sentiram representadas não só ao verem  um super-herói negro, forte e íntegro, mas ao verem também uma nação africana poderosa, inspiradora e empoderadora nas telonas. A atriz que interpreta Nakia,  Lupita Nyong'o, postou uma foto em seu instagram com crianças recriando os cartazes do filme: 

O ator negro veterano de Hollywood Will Smith, que costuma falar abertamente sobre questões sociais e políticas, disse em um vídeo postado em suas redes sociais: "Eu assisti o filme há alguns dias e, caraca, quase chorei. Vocês desafiaram e potencialmente destruíram muitas crenças e paradigmas falsos de longa data em Hollywood. Só quero parabenizar vocês. Estou orgulhoso. Estou animado [...]". Ele termina o vídeo fazendo a saudação de Wakanda.

Como (não) criar um menino

16 de março de 2018

POR LARISSA COELHO

Tão banais na infância, frases como "você chora como uma menininha", são reflexos de uma sociedade que impõe aos meninos um modelo de masculinidade baseado na negação do feminino. Ora, um homem não chora. Se chora como uma menina, pior.

Da série "Consolação" do fotógrafo Achim Lippoth, uma examinação da vida em família e dos momentos emocionantes em família. Foto: Achim Lippoth

A feminilidade tida como um sinal de fraqueza e submissão, faz com que qualquer traço dessa qualidade seja prontamente afastado desde muito cedo, seja por pressão dos pais, dos colegas e até mesmo da cultura em que a criança é imersa. Os meninos são, dessa maneira, pressionados a provar e afirmar sua masculinidade a todo tempo, quase sempre por meio dos esteriótipos do modelo "macho" de homem: a violência, a dominação, a coragem e a insensibilidade.

Construindo socialmente a masculinidade

Quando pensamos nos termos "feminino" e "masculino" e em suas definições, caímos na binaridade e nos estereótipos. A feminilidade frequentemente caracterizada pela submissão, sensibilidade e fraqueza. O masculino, por sua vez, é caracterizado como o completo oposto. Dois pólos separados por um abismo, no qual a combinação de tais características é impossível.

Confunde-se o modelo biológico do masculino e do feminino, isto é, se o bebê nasce com os cromossomos XX ou XY, com a identidade sexual adquirida pelo individuo. Desde seu nascimento, a criança é exposta à hiperfeminilização e a hipermasculinização por meio da binaridade, quer dizer, a divisão em dois de tudo aquilo que se deve caracterizar como "coisa de homem" e "coisa de mulher". Desde as cores (azul e rosa) até os brinquedos (utensílios domésticos e bonecas para meninas e carrinhos e arminhas para meninos).

Foto: Achim Lippoth

Tais divisões não são naturais. Não nascem conosco. São criadas, aperfeiçoadas e impostas pela cultura e pela sociedade. O próprio conceito de infância é uma construção social. Obviamente, crianças sempre existiram, mas o que entendemos por infância é algo surgido recentemente na história. Basta lembrar que muitos de nós tiveram avós que trabalharam na roça desde muito cedo e até mesmo se casaram muito cedo, com 14, 15 anos. Idade que poderia ser menor, não estivesse o casamento ligado ao ato de engravidar.

No campo da cultura, nada é dado nem determinado, tudo é construído. E é através dessa construção social que a masculinidade se dá por meios tortos, o machismo é enraizado e o desprezo pelo feminino é ensinado desde cedo, como solução para o que é ser homem.

A rejeição do feminino e o ódio as mulheres

Um menino é ensinado desde cedo, por meio de frases como "você joga como menina", "você chora como menina", que fazer qualquer coisa "como menina" é ruim, já que essas afirmações são constantemente associadas com algo negativo. Na vida adulta esse menino, que vagou em busca de sua masculinidade e encontrou exemplos violentos e insensíveis, adquire a personalidade do "macho alfa" e transforma a rejeição do feminino no ódio.

Esse ódio começa pela pornografia. No momento em que os meninos estão desenvolvendo suas preferências sexuais, eles são bombardeados por inúmeros exemplos de dominação e violência no ato sexual. Faz-se de tudo com o corpo da mulher. A educação sexual por meio da pornografia não só elimina completamente a noção do prazer feminino como normatiza a violência e a torna algo natural e desejável aos homens. Um exemplo disso, é a boneca sexual Samantha, "que foi tão severamente 'molestada' por um grupo de homens, que teve que ser enviada de volta para sua empresa com a necessidade desesperada de reparação e 'muito suja'". Para um menino, o pornô torna-se exemplo do que um homem realmente deve gostar e de como deve ser.

Foto: Achim Lippoth

Devemos repensar em nossas construções sociais e na maneira como elas afetam as relações. As noções de masculinidade e feminilidade precisam ser reconsideradas e reformuladas. O machismo que afeta tão severamente as mulheres tem suas raízes e reflexos nessas construções. Criemos meninos sensíveis, que choram e sentem medo. Mudemos o conceito do "macho alfa" e o tornemos o mais distante possível de nossa realidade. Só assim cortaremos o mal do machismo pela raiz. 

O Podcast também é das mulheres

13 de março de 2018


POR ALINE REIS

O Podcast é um tipo de produção de conteúdo por áudio, que tem se tornado cada vez mais popular no Brasil. O primeiro podcast brasileiro surgiu em 2004, chamado Digital Minds, criado por Danilo Medeiros. Atualmente, o mais popular no Brasil é o Nerdcast, que fala sobre tecnologia e cultura pop e completou mais de 1 milhão de downloads por episódio em 2016. A duração dos episódios varia, sendo em média de 60 a 90 minutos.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2014, aproximadamente só 13% do público ouvinte de podcasts é composta por mulheres. Temas como Humor e entretenimento são considerados os mais populares. É possível notar que tanto a esfera de assuntos abordados quanto o número de ouvintes dentro do universo de podcasts e dominada majoritariamente por homens, tornando difícil com que mulheres recebam algum destaque na produção dos programas ou sejam tratadas como público alvo. Mesmo aquelas que são convidadas para fazer parte de mesas não recebem suficiente espaço de fala, ou tem suas opiniões e vozes restringidas a temas considerados “femininos” ou de pautas feministas.

Pensando na importância de fomentar podcasts criados por mulheres, com convidadas - recorrentes ou não - e que falem sobre outras mulheres, Domenica Mendes, do Perdidos na Estante e Rodrigo Basso, do Covil de Livros, criaram o projeto #OPodcastÉDelas. A iniciativa começou em 2017 e segue em 2018 com sua segunda edição, a ideia é produzir e divulgar conteúdo sob a hashtag do projeto durante todo o mês de março, aumentando a participação feminina na podosfera. Os canais de podcast são incentivados a se inscreverem formalmente para receber o material de divulgação exclusivo aos participantes. Qualquer assunto é permitido, incluindo assim mulheres em temas que normalmente só recebem atenção quando discutidos por homens.

Logo do projeto #OPodcastÉDelas2018
Em conversa com O Articulista, Domenica explica como o projeto tem intenção de normatizar a presença de mulheres em conversas sobre qualquer temática. “Queremos mais mulheres falando sobre tudo. Absolutamente tudo! Sobre todo e qualquer assunto que ela tenha domínio, se sinta à vontade e confortável de falar”, conta.

O projeto gerou resultados e feedback de toda a podosfera. “A receptividade do público foi excelente e a receptividade da comunidade de podcasters também”, afirma. “Alguns programas gostaram tanto da ideia que criaram novos podcasts em seus sites, com novas propostas e já com equipes mistas ou femininas”, comemora a podcaster.

Todo o conteúdo da campanha pode ser encontrado no site oficial. Até o meio do mês de março já são quase 200 programas inscritos na campanha e mais de 50 episódios únicos lançados.

Canais de podcast produzidos por mulheres no Brasil

Felizmente, cada vez mais mulheres têm produzido conteúdo para podcast no Brasil. Os temas vão de cinema a cotidiano, passando por esquetes de humor e leituras de livros. Domenica Mendes e O Articulista destacam alguns programas que merecem ser ouvidos.

Organizado, apresentado e editado pela própria Domenica Mendes, o podcast fala sobre livros e adaptações para o cinema, série ou games. Além disso também são publicados episódios de interesse para novos escritores e escritoras.

Criado, comandado e apresentado por Priscila Armani, o podcast faz indicação de filmes e conteúdo audiovisual em geral. Os episódios são curtos em comparação com outros podcasts, tendo em torno de 15 a 30 minutos, sendo acessíveis para ouvintes em potencial que não estão acostumados com programas de 60 a 90 minutos.

Criado e apresentado por Brena, Cintia, Thais, Taianá e Riviane, o podcast conta sobre dia a dia e as experiências de cinco cearenses morando na Inglaterra.

Criado, comandado e apresentado por Grecia Baffa e Iole Melo, o podcast tem como objetivo apresentar e debater pautas de importância para o audiovisual.

Criado, comandado e apresentado por Juliana Wallauer e Cris Bartis, o Mamilos tem como objetivo tratar pautas de importância para a sociedade sob um olhar de empatia e respeito.

Fora os citados, é possível encontrar muitos outros podcasts, sobre os mais variados assuntos, que incluam mulheres nas mais diversas posições, seja na criação, produção ou como convidada. Escute mulheres, dê espaço de fala pra mulheres, produza para mulheres. Elas tem coisas maravilhosas para nos dizer.

Dia Internacional das Mulheres e a resistência de cada dia

8 de março de 2018

As origens do Dia Internacional da Mulher nos levam a diversos eventos. Em 1917, nos Estados Unidos, 15 mil mulheres organizaram uma passeata de proporções gigantescas, a fim de reivindicar melhores condições de trabalho - na época, elas chegavam a cumprir jornadas de 16hs diárias, não raramente durante os sete dias da semana. Do outro lado do globo, na Rússia, no dia 8 de março de 1917, de acordo com o calendário gregoriano, as mulheres deram o pontapé inicial para a monstruosa Revolução Russa: operárias marcharam nas ruas contra a fome e a continuidade da Primeira Guerra Mundial. Após a vitória bolchevique, o dia foi escolhido para celebrar a "mulher heroica e trabalhadora".

Mulheres na Revolução Russa

A oficialização a nível mundial só chegou em 1975, quando a ONU escolheu o dia 8 de março para institucionalizar o Dia da Mulher. Embora esses eventos completem décadas, a história não mudou muito: "Já faz mais de cem anos que isso foi levantado e é bom a gente continuar reclamando, porque os problemas persistem. Historicamente, isso é fundamental.", conta Eva Blay à BBC Brasil, uma das pioneiras nos estudos sobre os direitos das mulheres no país.

Em pesquisa recente com homens e mulheres, sabe-se que no Brasil a violência sexual é o maior problema enfrentado pelas mulheres, seguido pelo assédio e pela violência física. No país, 31% das mulheres já foram agredidas por um companheiro e, dentro desse número, 68% afirmam não denunciar o agressor por medo. Enquanto isso, uma entre cada duas mulheres é morta, contabilizando 43.500 só na última década, e 39% das mulheres entre 12 e 17 anos já foram assediadas, segundo o Datafolha.

O Dia Internacional da Mulher existe para nos relembrar de que conquistamos muitas coisas, mas o caminho ainda é longo: milhões de mulheres em todo o mundo ainda não têm o direito de estudar, de votar e de trabalhar. Meninas de todas as idades ainda são forçadas a se casarem e são violentadas diariamente. A mulher, tal como nos séculos passados, ainda não tem direito ao mínimo de dignidade e igualdade.

O dia 8 de março é dia de luta. Não nos deem flores ou chocolate. Não nos parabenizem. Isso jamais nos bastou.  Escrevam sobre mulheres, falem sobre elas, as enalteçam. Nos paguem pelo trabalho que fazemos.

E às companheiras, sigamos juntas! A luta continua.


Por que não estamos falando da neutralidade da rede?

5 de março de 2018

POR ROBERTA DOMINGUES

"Neutralidade da rede é liberdade de expressão"   Foto: Ronen Tivony / Global Look Press


Ao assinar um pacote de Internet no Brasil, paga-se pela velocidade da rede pretendida, que pode variar de 2 até 500 MEGA, dependendo da necessidade pessoal de cada um. Isso quer dizer que, independente da velocidade escolhida, o acesso às redes sociais, vídeos, filmes, downloads, e sites em geral não é limitado, exceto pela velocidade que a banda larga fornece — vídeos 1080p no Youtube demorarão muito para serem carregados em uma internet de 2 MEGA, mas é possível vê-los. O fato de nenhum provedor poder regular o conteúdo que é possível visitar de acordo com um plano de Internet é chamado de “neutralidade da rede”. Em 23 de abril, essa neutralidade vai acabar. Pelo menos será assim nos Estados Unidos.



COMO FUNCIONARÁ?

Em uma votação realizada em dezembro do ano passado, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos decidiu por alterar as normas sobre neutralidade da rede tomadas no governo de Barack Obama. Agora, o provedor de internet poderá decidir — por meio de diferentes planos de assinatura — o que cada usuário poderá visualizar na rede.

Por exemplo: dependendo do plano assinado, um usuário pode ter acesso ao Youtube e ao Facebook, mas não ao Twitter; outro plano poderá fornecer todas as redes sociais, mas não sites de notícias ou páginas acadêmicas.

Com a derrubada da neutralidade, os provedores de Internet vão ter liberdade para bloquear ou distribuir conteúdo como bem entenderem, ou cobrar diferentes valores para quem quiser acessar diferentes tipos de conteúdo — a única obrigação dessas companhias será divulgar os métodos de cobrança.



JUSTIFICATIVA E PROBLEMÁTICA

As empresas de comunicação afirmam que não é dever do Estado gerenciar a Internet. Por isso é importante a liberdade de concorrência. Um usuário de área remota, que conta com poucas opções de provedor, poderia pagar um plano com acesso a um só serviço (redes sociais, por exemplo), e estaria conectado ao que os provedores decidissem ofertar na área, assim estimulando a concorrência de serviços nessas áreas remotas.

Porém, um dos problemas é que uma das empresas pode decidir diminuir a velocidade ou qualidade de conexão enquanto o serviço de um concorrente é utilizado. Se a neutralidade da rede realmente cair, os provedores de internet não precisariam informar seus clientes.

Sérgio Amadeu, membro do Comitê Gestor da Internet (CGI), informa: “Temos uma rede aberta, democrática. Com a quebra da neutralidade, você burocratiza, e pode obrigar aos criadores de novos aplicativos e ferramentas a terem que negociar com as operadoras o acesso aos seus serviços”. Em suma, o criador de algum novo aplicativo ou site teria que negociar com essas grandes empresas de telecomunicações a permissão para que o público acessasse seu conteúdo. Isso é especialmente prejudicial aos pequenos negócios e sites/ferramentas de minorias, que poderiam ser vetados por não se “adequarem” aos princípios dos provedores. A lei hoje permite igual acesso a todas as pessoas e empresas que queiram lançar serviços ou produtos online.

A Internet tem sido um espaço acolhedor para aqueles que são mal representados pela mídia e não têm voz em meios de comunicações grandes. É por meio da rede que a liberdade de opinião dessas minorias — mulheres, negros, o próprio grupo LGBT+ —  é garantido. Se a neutralidade da rede cair, as vozes dessas pessoas podem ser novamente abafadas e até mesmo censuradas. Sem a internet livre, as minorias perderiam uma importante plataforma para a divulgação de seus ideais.

O mesmo ocorre para os pequenos negócios. Sem o apoio da internet livre, startups sequer conseguiriam concorrer com grandes empresas, o que arruinaria a livre competição tanto prezada pelo sistema. Novas plataformas importantes, como o próximo Google ou Facebook, jamais sairiam do papel.


"A democracia depende do acesso igualitário de todos às informações"    Foto: Flickr/Tim Carter



NO BRASIL
O governo brasileiro não tem planos para acabar com a neutralidade da rede, e até mesmo se posiciona contra. Em entrevista, Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, diz que o governo é contrário ao fim da neutralidade. “Somos contra. O Brasil não está preparado para essa discussão. É uma decisão de poder político. Não terá iniciativa política nesse sentido”. Ainda segundo ele, o Brasil não está pronto para discutir essa questão porque ainda se vê tentando conectar mais pessoas à rede com o projeto Internet Para Todos, em especial àquelas que moram em áreas isoladas.

O Marco Civil da Internet, assinado em 2014 pela ex-presidente Dilma Rousseff, assegura a neutralidade na rede no país. Segundo ele, deve-se “tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino”.



Um Novo Começo?

29 de novembro de 2017


Por Enzo Kfouri


Nessas últimas semanas, mesmo sem a atenção devida, a mídia tem falado sobre a retirada do líder Robert Mugabe e a crise política que assombra o Zimbábue, país com pouco mais de 16 milhões de habitantes localizado no sul do continente africano.

Envolto em uma crise econômica grave, a nação com a maior inflação do mundo tenta se reerguer politicamente, procurando deixar de lado os fantasmas do passado colonial.

No poder há quase quatro décadas, Mugabe estava aguentando a pressão popular e as manifestações quando foi forçado a renunciar por conta da intervenção militar, que no último dia 15 levou as forças armadas a tomar as ruas da capital Harare e assumiram o controle dos edifícios governamentais e os meios de comunicação.

Ex- presidente do Zimbábue Robert Mugabe. O chefe de estado que estava há 37 anos no poder renunciou no último dia 21 por pressão das forças armadas. Fonte: Philiman Bulawayo/Reuters

A renúncia do político que governou desde 1980 se deu no dia 21, quase uma semana depois da ocupação dos militares, através de uma carta que não indicou nenhum sucessor. O país africano atravessa um período muito frágil em relação à sua economia, porém estima-se que todo o conflito político tenha se intensificado após Mugabe ter destituído, no último dia 6, o então vice-presidente Emmerson Mnangagwa, na época provável sucessor da presidência nas eleições de 2018, por influência da primeira dama, Grace Mugabe, com quem competia para suceder o chefe de estado.

Ao contrariar seu partido, a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), Mugabe acabou decretando o fim de seu longo governo, uma vez que a união política e Mnangagwa acabaram por se aliar com as forças armadas e com a população que protestava contra o governante para retirar ele e sua mulher do poder. Contudo, é importante se ter em mente que os problemas políticos, econômicos e sociais na antiga Rodésia não são atuais, e sim consequências de um passado longo de exploração proveniente do neocolonialismo. 

Veículo blindado em Harare, na manhã de 15 de novembro próximo à sede da presidência. Fonte: Tsvangirayi Mukwazhi/AP

Colonização e Independência


Colônia britânica desde o final do século XIX, o Zimbábue possuía uma elite branca muito presente que tomava as decisões e detinha o poder. Era normal nas colônias inglesas todo o sistema de policiamento e exército serem propriamente subordinados à metrópole, o que dificultava a autonomia desses territórios. Entretanto, o caso da Rodésia do Sul, como era chamada na época, era totalmente diferente, pois encontrava-se estruturada de outra maneira, uma vez que a elite local que comandava esses segmentos.

Mapa da região sul da áfrica, destacando a localização do Zimbábue e da Zâmbia, ex-Ródésia do Sul e Rodésia do Norte, respectivamente. Fonte: Arte UOL


Em 1964, após negociações, o Reino Unido concede à Rodésia do Norte, atual Zâmbia, a independência. Todavia, isso não ocorre com a Rodésia do Sul pelo fato de os líderes locais não concordarem com os termos ingleses que impediam que o governo novo fosse eleito à base do sufrágio universal.

Desse modo, um ano depois, o primeiro-ministro local acaba declarando unilateralmente a independência em 11 de novembro de 1965, feito que não ocorria desde a independência americana, isto é, desde 4 de julho de 1776.  No pronunciamento também promulgou uma constituição através da qual o país passaria a adotar o nome de República da Rodésia. A declaração não foi reconhecida pelo Reino Unido e nem pela ONU, que só consideraram o território definitivamente independente em 1980, 15 anos depois. 

Guerra Civil (1965-1979)

Após o evento de 1965, mesmo sem o reconhecimento internacional, a minoria branca assume o poder para lidar com as guerrilhas africanas de ideologias esquerdistas, o que dá início a uma guerra civil sangrenta que dura mais 14 anos (1965-1979). É durante esse período que surgem duas uniões fortes: a já mencionada ZANU-PF, liderada por Mugabe e a ZAPU (União do Povo Africano do Zimbábue), comandada por Joshua Nkomo.


Em 1979, através do acordo de Lancaster House, apoiado por diversas potências europeias e pelos EUA, a paz finalmente é instaurada. Com o final da guerra o território finalmente consegue implementar o sufrágio universal e acabar com o domínio da minoria branca, proclamando-se então a República do Zimbábue, liderada pelo primeiro-ministro Robert Mugabe, eleito democraticamente pela maioria.

Governo Mugabe (1980-2017)

A princípio, Mugabe foi mundialmente elogiado por sua postura supostamente conciliadora, mas a história mostraria sua verdadeira face. Ainda em seus primeiros anos de governo, o político ficou conhecido por perseguir a minoria branca, forçando-a a fugir do país. O Mugabe da televisão, dos discursos de reconciliação racial não se assemelhava em nada com o real.


Em 1982, Mugabe passa a comandar o país sozinho, rompendo a coligação de Unidade Nacional de dois anos com Joshua Nkomo, o que gera um grande conflito entre as duas principais etnias da nação: os shonas (71% da população e etnia de Mugabe) e os ndbeles (29% da população). Foi nesse período que as forças armadas leais ao presidente cometeram as maiores atrocidades, deixando 20.000 civis mortos. Cinco anos depois, os dois lados se acertam e o então chefe de estado, tentando contentar a maioria, nomeia seu antigo rival vice-presidente. Após isso, o presidente centralizou as políticas econômicas na produção de cereais e a partir de 2000, com a reforma agrária, as condições pioraram brutalmente. 

Apoiadores de Emmerson Mnangagwa comemoram renúncia de Mugabe. Fonte: Ben Curtis/AP
Por conta da medida, a agricultura, “espinha dorsal” do país, entrou em queda livre, com a produtividade atingindo níveis miseráveis sem precedentes na história do país. O que se iniciou como um processo de nacionalização forçada das propriedades agrícolas nas mãos da população branca para as redistribuir aos negros, sob o discurso de haver uma “necessidade de inverter os desequilíbrios econômicos”, transformou-se em uma política que beneficiava próprio presidente, sua família e a elite partidária, deixando milhares de trabalhadores negros sem trabalho e moradia.

Rapidamente o Zimbábue deixou de ser o celeiro da África, como era reconhecido por sua produção abundante, para se tornar uma nação à beira da miséria extrema com índices altos de fome.  Assim, desde que chegou ao poder em 1980, o político viveu por décadas de maneira indiferente aos problemas locais. Enquanto a imprensa internacional reportava as condições precárias da saúde e educação públicas, incluindo a qualidade de vida, a elite política mandava no país.


Nas últimas décadas, a inflação do país conquistou o infame posto de maior inflação do mundo. As notas de bilhões e trilhões de dólares do Zimbábue tornaram-se fetiche de colecionadores.  A inflação chegou a tal ponto que o país perdeu  o controle sobre sobre sua economia e se viu forçado a abrir mão de uma moeda nacional.

Cédula de 100 bilhões de dólares do Zimbábue. Hoje é comum no país se fazer o uso de moedas estrangeiras. Fonte: AFP

Com a deposição de Mugabe, o povo do Zimbábue espera um futuro melhor para que possa se esquecer das últimas décadas sombrias que degradaram a qualidade de vida no país. Espera-se com o novo líder que as condições melhorem, mas o que esperar de um presidente do mesmo partido que só tomou posse por conta de desentendimentos entre seu antecessor e a elite política, cúmplice das tragédias humanitárias?
O lado oculto da indústria pornô

O lado oculto da indústria pornô

Por Roberta Domingues


A porn set in Greater Los Angeles
Set de filmagens em Los Angeles. Foto: Gustavo Turner


A indústria pornográfica movimenta cerca de US$94 bilhões anualmente no mundo inteiro. A cada minuto, são gastos R$10 mil em conteúdo sexual. Com a ajuda da internet, a indústria pornô se tornou tão rentável quanto tráfico de drogas. Por mais que 43% dos internautas procurem sobre o assunto, poucos sabem o que se passa por trás das lentes.


Abuso sexual e drogas


“Depois de um ano e pouco dessa vida “glamourosa”, infelizmente descobri que drogas e bebidas faziam parte desse estilo de vida. Comecei a beber sem controle e a ir em festas — cocaína, álcool e ecstasy eram meus favoritos”, conta Andi, uma ex-atriz pornô que deixou a indústria em 2010, mas infelizmente voltou em 2014.

Quase todos os relatos de trabalhadoras sexuais envolvem drogas e abusos. Muitas contam que eram obrigadas a atuar em cenas ou com atores que não queriam, mas que acabavam por fazer por causa do dinheiro ou da pressão que seus agentes faziam sobre elas. Não é raro também que as atrizes estivessem drogadas durante as gravações para conseguir suportar as longas tomadas e abusos físicos ou verbais. “A maioria das garotas começa a chorar porque sente muita dor… Eu não conseguia respirar. Estavam me batendo e me enforcando. Eu estava muito chateada e não pararam. Continuaram filmando. Falei para que desligassem a câmera, mas não me ouviram e continuaram”, reporta Regan, outra atriz.


Shelley Lubben, ex-atriz pornô e fundadora do site Pink Cross para a ajuda de mulheres da área, estima que 70 atrizes já cometeram suicídio e pelo menos outras 230 morreram de forma trágica, como por overdose, homicídio ou DST.

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"Exploração não é empoderamento"  Foto: fightthenewdrug.org


“Foi uma tortura por sete anos. Eu era miserável, solitária, e eventualmente caí nas drogas e no álcool e tentei me suicidar. Eu sabia que queria me afastar, mas não sabia como” — Jenna


A mulher como objeto sexual


Não são raros os vídeos de espancamento, sexo bruto, puxões de cabelo e afins. A maior parte dos protagonistas são homens, e parece que quanto mais violentos forem, mais competente como atores eles são. A mulher, portanto, acaba por ser abusada para que o filme seja mais excitante.

Tentando combater essa ideia, há alguns anos tem surgido uma nova vertente dessa indústria: o pornô feminista. Um entre três consumidores de pornografia é mulher, e muitas não se sentem representadas na tela. O pornô feminista chega com o objetivo de incentivar o sexo prazeroso para ambos os parceiros, estimulando a conversa e o consentimento, mostrando também o prazer feminino e não focando exclusivamente no homem.


“Era o trabalho mais degradante, embaraçoso e horrível. Tive que filmar para um DVD interativo, o qual leva horas e horas para gravar, com uma febre de 40°C! Eu estava chorando e queria ir embora, mas meu agente não deixava; ele dizia que não podia me permitir dar um “bolo” na gravação.”  — Jessi


Tráfico de pessoas e pedofilia


A pornografia que vemos diariamente e que está disponível em websites é a mais light que existe. Presente na surface web, a internet que qualquer um pode acessar, essa pornografia normalmente está dentro da lei e conta com maiores de idade que consentem com o sexo que fazem. É na deep web que se encontram os vídeos feitos com pessoas raptadas e crianças. A deep web é a camada mais profunda da internet, aquela que não aparece em sites de busca e que necessita de programas especiais para ser acessada. Por conter sites criptografados e irrastreáveis, é comumente usada para atividades ilegais, como compra e venda de armas, drogas, e tráfico de pessoas.

É na deep web que se pode encontrar vídeos perturbadores da indústria pornográfica ilegal: estupros, pedofilia, prostituição, venda de pessoas; nela são movimentados mais de US$3 bilhões de dólares anualmente, e é um dos comércios online que mais crescem no mundo. Toda a rede ilegal vale em torno de US$13 bilhões de dólares somente nos Estados Unidos. São feitas pelo menos 113 mil pesquisas diárias com o termo “pornografia infantil” na internet.


Fontes: Telegraph, Linkedin, Ludovica, Revista VIP, MDIG, Fight the New Drug, Covenant Eyes

ENSAIO:"Vem pra rua, vem. Contra o racismo!"

20 de novembro de 2017


Por Marjorie Wartanian


O dia 20 de novembro é de reflexão e luta. Dia da Consciência Negra, o feriado é uma homenagem a Zumbi dos Palmares desde 2003. Foi neste dia, em 1695 que morreu Zumbi, representante da luta dos negros no Período Colonial do Brasil e então líder do Quilombo dos Palmares. Sua morte ocorreu em combate, defendendo seu povo e se tornando ícone de resistência.


A abolição da escravatura aconteceu oficialmente em 1888, mas durante toda a história os negros lutaram contra a opressão e resistiram. Mesmo com leis contra discriminação e com 53% da população sendo negra o Brasil ainda é absolutamente racista. A maioria dos negros que chegam ao país descrevem a população da mesma forma: "Eles são violentos".


Assim, a criação do feriado é uma forma de reflexão e lembrança da história dos negros no Brasil e também mais um dia de luta contra o racismo, que ocorre incisivamente no país. Desde sua criação o feirado conta com Marchas contra o racismo e o genocídio do povo negro. A Marcha de 2017 foi a 14º  levou milhares de pessoas à Avenida Paulista mesmo com a chuva. 


O tempo nublado e a não cooperação da CET  e da Polícia Militar não impediram o acontecimento da Marcha, mas mostraram que os negros estavam dispostos a lutar contra as injustiças e massacres que vivem diariamente. Às 13h o evento oficial da Marcha fez a seguinte publicação: "(URGENTE) A *Frente Alternativa Preta* juntemente com a *Marcha da Mulheres Negras - SP* e a *Convergência Negra* comprometeram-se com a realização da *14° Marcha da Consciência Negra*, realizaram todos os procedimentos relativos às autorizações para a participação dos carros de som que nos acompanhariam durante a marcha. Todavia, a *CET*não compareceu à reunião com as representações dos movimentos, a *PM* e a *Guarda Cívil* para organizar a atividade. Foram feitas diversas tentativas de contanto com a CET, temos inclusive, o comprovantes com o número de protocolo. Neste momento, a *PM*, em virtude da "não autorização da *CET*, que se recusou ao diálogo, está impedindo a dos carros de som na Av. Paulista, local de concentração da Marcha, bem como, está dizendo que impedirá os carros de seguirem o trajeto da marcha." Mostrando que não se calariam, os presentes na Avenida Paulista fizeram com que o evento acontecesse e a Polícia e a CET começaram a fazer seu trabalho.


Por volta das 16h as pessoas começaram a andar em direção à Rua Consolação e a Marcha começou a ganhar visibilidade e grandes proporções. As pessoas chegavam dando mais peso à causa e os gritos por respeito e contra o racismo ficavam cada vez mais altos. Além da voz das pessoas a caminhada contou também com baterias em diversos pontos, elas foram delineando e dando ritmo à cada palavra.


Desde "Pelo fim da PEC 181" até "Não à redução da maioridade penal", os diversos cartazes contextualizavam o Movimento, todos com pautas importantes, mas lutando pela mesma causa: O fim do racismo.


O racismo é estrutural e herança da sociedade escravocrata. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com o Índice de Vulnerabilidade Social Os jovens negros entre 12 e 29 anos estão mais vulneráveis ao homicídio do que os brancos com a mesma idade. Entre 2005 e 2015 o índice de mortalidade de mulheres negras subiu 22%. O racismo acontece e muitos fingem não ver, mas os dados comprovam sua existência.









Mianmar: da "limpeza étnica" aos interesses econômicos

17 de novembro de 2017

Por Larissa Coelho

Refugiados rohingya esperam para receber auxílio em Cox's Bazar, Bangladesh. Fonte: Cathal McNaughton / Reuters

Quando se trata de conflitos no Oriente Médio, África e Ásia é comum ouvir a explicação preponderante de que existem como consequência de um ódio irracional enraizado na cultura ou religião, pois tratam-se de "conflitos étnicos seculares".

Mianmar, de acordo com a versão oficial, plenamente adotada pela mídia, seria um desses casos. O país, localizado no sul da Ásia, vivencia uma "limpeza étnica", segundo a ONU. Cerca de 1 milhão de muçulmanos rohingyas vivem em Mianmar, país predominantemente budista. A maioria mora de maneira precária no estado de Rakhine, palco dos episódios recentes de violência.

Os rohingyas atualmente protagonizam uma fuga em massa de Mianmar para o país vizinho Bangladesh que vive uma crise humanitária com acampamentos de refugiados superlotados. Haveria pelo menos 650 mil rohingyas em Bangladesh. "A magnitude e a velocidade do fluxo [de refugiados] não tem precedentes em Bangladesh", afirma o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), relatando que "60% dos refugiados são crianças".

Quem são os rohingyas


Um grupo de refugiados Rohingya vindos de Mianmar para Bangladesh, descansam em sua nova área de refúgio na cidade de Kuala Langsa na província de Aceh. Fonte: AFP

Os rohingyas, um grupo étnico que pratica o islamismo, vivem no território de Mianmar há gerações e, no entanto, não fazem parte dos 135 grupos locais oficialmente reconhecidos. São proibidos de casar ou de viajar sem a permissão das autoridades e não têm o direito de possuir terras ou propriedades, além de serem vítimas de trabalho forçado, extorsão e restrições à liberdade de circulação.

Falam um dialeto particular e distindo dos idiomas falados no estado de Rakain, o Rhingya ou Ruaingga. Têm a cidadania negada pelo governo de Mianmar desde 1982, e por décadas vêm fugindo de perseguições - sobretudo para Bangladesh, Malásia, Índia, Nepal e EUA -, onde quase sempre enfrentam situações de vida precárias.

Desde que o país se tornou independente, os rohingyas têm sido vítimas de negligência e repressão. Nos últimos anos, com as mudanças políticas e sociais ocorridas no país, viram uma onda de violência voltar a emergir contra eles. Após ter sido governado por uma junta militar por mais de 50 anos, Mianmar vinha passando por uma democratização e por melhorias no campo social, que não atingiu o povo rohingya.

Como o conflito começou 


Refugiados Rohingya desembarcam de um barco no lado bengalês do rio Naf. Fonte: Masfiqur Sohan / Getty Images

Em 2012, violentos confrontos no país orquestrados por extremistas de maioria budista deixaram cerca de 200 mortos, centenas de casas e edificações muçulmanas destruídas e 100 mil desabrigados. Autoridades foram acusadas de não agir para defendê-los.

Em agosto desse ano, a violência explodiu novamente: o Exército lançou uma grande operação, após a rebelião do Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA) contra cerca de 30 delegacias de polícia. Cerca de 500 pessoas morreram, em maior parte membros da minoria muçulmana, segundo o exército.

Para Zeid Ra'ad Al Hussein, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, o tratamento que Mianmar dá à minoria muçulmana rohingya se assemelha a um "exemplo de limpeza étnica de manual".

Quase que por ironia, o governo de Mianmar é liderado de facto pela vencedora do Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que se limitou a dar apoio ao Exército, garantindo que "as forças de segurança receberam instruções" para "evitar danos colaterais e que os civis inocentes fiquem feridos durante sua missão legítima de restaurar a ordem". Aung San Suu Kyi depende do poderoso movimento de monges nacionalistas, que consideram os muçulmanos uma ameaça para Mianmar.

A questão econômica 


Uma mulher rohingya segura um bebê que morreu quando o barco em que estavam virou logo antes de alcançar a margem do Golfo de Bengala em Bangladesh. Fonte: Zakir Hossain Chowdhury / Getty Images.

A compreensão das causas para o conflito em Mianmar depende de um olhar atento, não limitado às causas sociais e culturais, mas ampliado à movimentação política e econômica da região. Enquanto os olhares se direcionam para a situação como uma questão de conflitos étnicos, corporações veem nela um quadro favorável à expansão de seus domínios.

À medida que a crise do povo rohingya é amplamente criticada por diversos países, a China ainda mantém relações com o governo de Mianmar, em meio a uma estratégia comercial, energética e de infraestruturas chinesa no Sudeste Asiático. Os ataques contra os rohingya têm ocorrido em um local de desmatamentos de terra, próximo de terminais de de petróleo e gás, pelos quais os combustíveis são transportados até a China.

Mianmar foi considerada a "última fronteira asiática" para o processo de expansão capitalista na região. Começou a abrir sua economia na década de 1990, mas só concluiu o processo depois de reformas realizadas em 2006, tornando-se propício para corporações de mineração e companhias de petróleo e gás.

Em 2012, uma mudança na lei que regula a aquisição de terras teve como consequência um vasto processo de expropriação das mesmas para o favorecimento de investidores estrangeiros que atingiu milhões de habitantes, independentemente de sua religião.

Por meio dessa perspectiva, o conflito de Mianmar ultrapassa as barreiras das diferenças étnicas e religiosas e se torna um meio de liberar a obtenção de terras e recursos para as corporações. Dessa forma o apelo por diálogos e acordos entre as partes conflitantes mira apenas no conflito e esquece de questionar as causas econômicas e políticas.
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