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Crítica
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A repercussão de Pantera Negra e a representatividade

18 de março de 2018


Por Lara Sylvia

Pantera Negra: O filme do heroi africano já é a nona maior bilheteria dos EUA. Foto por: Omelete

O universo cinematográfico dos super-heróis sempre deixou a desejar na questão da representatividade de minorias, mas, felizmente, o cinema tem evoluído nesse quesito pouco a pouco. O filme Pantera Negra, lançado em fevereiro deste ano, se destacou pela quantidade de personagens negros e mulheres em papeis de grande importância e traz um ponto de vista diferente do que já foi mostrado pela Marvel até agora.

A história se passa em Wakanda, uma nação africana ficcional, um lugar que combina o passado e o presente com sua ancestralidade e tradições fortíssimas e a tecnologia mais avançada do mundo. Apesar de parecer mais um estereótipo da pobreza africana para quem vê a cidade de fora, Wakanda possui a maior concentração de Vibranium do mundo, o metal fictício já utilizado no escudo do Capitão América e no androide Visão.


Killmonger, o problemático vilão de Pantera Negra. Foto por: Omelete
  
O heroi Pantera Negra é, na verdade, o rei wakandano T'Challa que, após a morte de seu pai, precisa provar sua força como guerreiro e líder da nação. Porém, o filme surpreende e apresenta jornada dupla, já que a capacidade do vilão também precisa ser provada: Killmonger, como é chamado, levanta igualmente a problemática do racismo e do pertencimento cultural, fazendo com que a existência dele seja motivo de reflexão para todos e não uma presença maligna que deve ser combatida a qualquer custo.


A espiã Nakia e a princesa de Wakanda. Foto por: Omelete

A representação das mulheres negras wakandanas também é realmente bem feita no longa. As personagens de destaque, como a princesa e cientista Shuri, a espiã Nakia e a líder das Dora Milaje (a guarda real) Okoye, são independentes do rei T'Challa e tem suas vontades próprias e pequenos universos particulares muito bem construídas dentro da narrativa.

Mesmo tendo tão pouco tempo de estreia, o filme Pantera Negra, com seu humor inteligente (Shuri chamando o homem branco de colonizador, por exemplo, e fazendo ele se sentir desconfortável em sua nação) e sua trilha sonora incrível composta em sua quase totalidade por artistas negros, como  Kendrick Lamar e The Weeknd (que incluíram ritmos que lembra muito a África por si só),  já provocou uma imensa identificação em milhares de pessoas, principalmente crianças negras, que se sentiram representadas não só ao verem  um super-herói negro, forte e íntegro, mas ao verem também uma nação africana poderosa, inspiradora e empoderadora nas telonas. A atriz que interpreta Nakia,  Lupita Nyong'o, postou uma foto em seu instagram com crianças recriando os cartazes do filme: 

O ator negro veterano de Hollywood Will Smith, que costuma falar abertamente sobre questões sociais e políticas, disse em um vídeo postado em suas redes sociais: "Eu assisti o filme há alguns dias e, caraca, quase chorei. Vocês desafiaram e potencialmente destruíram muitas crenças e paradigmas falsos de longa data em Hollywood. Só quero parabenizar vocês. Estou orgulhoso. Estou animado [...]". Ele termina o vídeo fazendo a saudação de Wakanda.

O papel dos zoológicos no século XXI

31 de outubro de 2017

Por Marina Monari

Still do vídeo postado pelo verador Reginaldo Tripoli (PV)


Brasil


No começo de outubro desse ano, a Câmara Municipal de São Paulo recebeu um debate sobre o futuro dos zoológicos, que acabou com a maioria dos ali presentes defendendo que as estruturações desses lugares não são as esperadas para a  prática de conservação de espécies. Das principais críticas, a ressignificação dos zoológicos, bem como o repúdio à utilização de animais como forma de puro entretenimento e suas qualidades de vida foram as mais discutidas.


Foto: Reprodução/Google


Um dos participantes do debate foi o coordenador de operações de fiscalização do Ibama, Roberto Cabral Borges, que declarou:  “Nós já temos tecnologia para mudar isso. Para mostrar os animais de uma forma diferente e a gente quer caminhar para esse lado”, disse. “Você pode ter o entretenimento sem manter os animais em cativeiro. E os animais que necessitarem estar cativos, que estejam por um motivo mais nobre que é a conservação”.

O vereador Reginaldo Tripoli (PV) baseou sua fala nas condições em que os animais vivem, as quais é possível observar que nenhum deles exibe comportamentos reais correspondentes aos de suas espécies, ursos e leões não vivem apenas dormindo e comendo em seus habitats naturais; para ele a ideia não é acabar com essas instituições, mas sim reformula-las de forma que se proíbam as visitas, ou seja, o contato com o humano. E ainda postou em seu perfil no Facebook um vídeo sobre a história dos zoológicos.

Outra presença importante foi a do secretário do Verde e Meio Ambiente, Fernando Von Zuben, que concorda com as proposições de reformulação do vereador e ainda diz que é preciso criar uma legislação que impeça a abertura de novos zoológicos no Brasil: “Os que conseguem se manter e tratar os animais de uma forma mais digna devem continuar, obviamente. Entretanto, os que não têm condições de funcionar teriam de ser transformados em santuários", disse.

Sugerindo uma outra visão sobre o assunto, o presidente da Fundação Zoológico de São Paulo, Paulo Magalhães Bressan, trouxe para o debate a triste realidade de que as bilheterias dos zoológicos são o que custeiam as pesquisas feitas para a preservação de espécies e geram condições financeiras para suas conservações.  “É uma proposta que demanda solução. E isso também é o que faz diferença nessa discussão. Se a gente tiver essas soluções, eu acredito que a outra questão é como você vai convencer a sociedade que um zoológico como o de São Paulo, com 60 anos de vida e mais de 80 milhões de visitantes [precisa fechar]. É preciso saber o que ela [a sociedade] acha disso”, e ainda chamou a responsabilidade para a sociedade.

Breve histórico


Somente no século XVIII os zoológicos foram considerados lugares de preservação de espécies, antes disso, as coleções de animais eram apenas para exibição de poder de reis e diplomatas. Já no século seguinte, foram criados zoológicos humanos, onde se expunham, na Europa, pessoas do continente Africano. O século XIX foi marcado pela criação do primeiro zoológico no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente em 1888. Mas apenas em 1983 foi criada uma legislação para a regulamentação desses lugares, a lei 7.173:
"Art 1° - Considera-se jardim zoológico qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos em cativeiro ou semiliberdade e expostos à visitação pública."
109 zoológicos depois, a lei ainda é a mesma.

Algumas problemáticas no Brasil


Os problemas começam na origem dos animais que vão para os zoológicos, muitas vezes são capturados ilegalmente e são vítimas de tráfico ilegal, que corresponde hoje ao terceiro mais lucrativo no Brasil, perdendo apenas para o de drogas e o de armas. Ele consiste na retirada de bichos de seu habitat natural para serem comercializados, mas 90% deles não sobrevive até o destino final, uma vez que sofrem tremendo estresse ao serem retirados de seu ambiente, além de serem transportados extremamente dopados e em condições atrozes, como dentro de tubos de PVC ou meias de nylon.

Outro problema mais recente são os "Selfie safáris", que consistem em pessoas que pagam para segurar animais simplesmente para terem uma foto bonita. Os casos mais escandalosos são de cidades na Amazônia e no município de Puerto Alegría, no Peru. Nesses lugares, foram flagrados, pela Organização Mundial de Proteção Animal, os maus tratos de animais silvestres como araras (cutucadas pelos "tratadores" para que os turistas ouvissem seus gritos), crocodilos (que eram mantidos em refrigerados quebrados e com pulseiras de silicone ao redor da mandíbula) e botos (provavelmente, mantidos sem comida para que quando os turistas chegassem para alimentá-los, se amontoassem para as fotos).

Foto: Leo Albuquerque/ICMBio. Turista observa boto vermelho em Anavilhanas, no Amazonas


Foto: Reprodução/NetGeo. 



Hoje em dia, esse tipo de turismo na Amazônia representa 1% do PIB. 

Alguns casos no mundo


Em zoológico na Coreia do Norte, a principal frase que se vê nesse tipo de ambiente "não alimente os animais" está sendo ignorada categoricamente, lá os visitantes podem alimentar todos os animais com qualquer tipo de comida que quiserem, inclusive as que ainda estão embaladas em plástico. Em vídeo flagrante feito pelo Correio Brasiliense, o repórter grava um visitante dando algum tipo de pururuca para ursos, que se amontoam e ficam de pé perto do mezanino onde o homem se encontra, parecendo implorar por mais comida, o que pode significar que uma alimentação por parte do zoológico está sendo-lhes negligenciada. Como se já não fosse o suficiente, é possível sentar em algumas espécies de animais, como em jabutis. 

Foto: Renato Alves/CB/D.A Press


Depois de 150 anos, o zoológico de Buenos Aires foi fechado pela prefeitura. Segundo o prefeito, Horácio Rodríguez Larreta, é um lugar em que há 140 anos os animais vivem em péssimas condições. Um dos exemplos desses maus tratos, foram os ursos polares, que morreram devido ao verão rigoroso da Argentina. Dos 1500 animais ali presentes, 1450 serão levados a santuários (lugares sem fins lucrativos, que tem como premissa a reabilitação e reinserção dos animais em ambiente selvagem), os 50 restantes estão em tais condições que não sobreviveriam o transporte, como a Orangotango Sandra.

Foto: Natacha Pisarenko / AP


Outro caso, foi um crocodilo morto no zoológico de Túnis, capital da Túnisia, por visitantes que atiraram pedras em sua cabeça, lhe causando um aneurisma e morte imediata. Segundo nota da instituição, há guardas no local responsáveis pela segurança dos cativeiros, no entanto não o suficiente para que possam vigiar todos 100% do tempo, o que causa esse tipo de atrocidade e mais algumas como deixar lixo no chão (que pode ser carregado pelo vento para algum cativeiro) e outros casos de lançamentos de pedras em leões e hipopótamos.

Os zoológicos como reflexo da sociedade


Poder! Desde as primeiras coleções de animais, o comportamento dos reis e generais ao enclausurarem os bichos ou darem-nos de presente era pura e simplesmente para a exibição de poder que tinham; afinal, quem vai se meter com um monarca que possui rinocerontes em armaduras? Após isso, com os zoológicos humanos, a intenção era mostrar a superioridade branca em detrimento dos escravos africanos negros ou nativos índios. 

Por que, atualmente mas nem tanto assim, as pessoas treinam animais para desenhar, fumar ou resolver problemas de matemática? Não dá para afirmar que fazem isso simplesmente para saber qual a capacidade motora e neurológica das espécies, afinal eles são treinados para parecerem cada vez mais com humanos, mas com humanos enjaulados. 

Jaula, outro problema. Nunca se ouve essa palavra quando caracterizam os ambientes em que os animais são mantidos, não são mostradas as grades, nas visitas ao backstage dos zoológicos não são permitidas câmeras fotográficas ou de filmagem. Mas há relatos de quem já visitou, relatos de que macacos não recebem comida nas 8h, oito horas!, que ficam em exibição, para que voltem com facilidade ao verem alimento em suas jaulas e fiquem enjaulados por 16h, dezesseis horas!

Muitas das pesquisas são financiadas pelos bichinhos fofinhos ou exóticos, como os tigres, que enchem todos os dias os zoológicos gerando lucro nas bilheterias. Convenhamos, quem iria querer ver um zoológico cheio de sapos ou grilos? Espécies que também sofrem com o perigo de extinção. Não está na hora de lutar por todos eles?

Como então resolver um problema que sempre refletiu a sociedade e sua extrema necessidade por poder em cima daqueles que não tem como se defender das armas de fogo ou tranquilizantes?

Não consigo dizer que os santuários são a salvação, ou até mesmo que todos os zoológicos são vilões, nós nunca saberemos o que realmente acontece por trás das grades. Mas nós podemos educar e conscientizar, para que o futuro seja menos de poderio sobre os animais e mais de ajuda aos bichos que são indefesos a toda tecnologia humana. Nós podemos ser críticos e demandar respostas para todas essas questões, uma vez que muitos dos zoológicos hoje em dia são de iniciativas governamentais. E acima de tudo, refletir qual o papel do zoológico no século XXI, não é mais possível que pessoas lucrem em cima de animais enjaulados.

Então, qual o nosso papel no século XXI?



Fontes: Câmara Municipal de São Paulo, Zoológico de Buenos Aires - O Globo, Selfie Safáris - Catraca Livre, Zoológico da Coreia do Norte - Diário de Pernambuco






A quarta Menina Superpoderosa e a representatividade

14 de outubro de 2017


Por Lara Sylvia

Blisstina, a primeira Menina Superpoderosa negra. Fonte: Divulgação

Lançada em 1998 pelo canal Cartoon Network, nos Estados Unidos, a série de desenho animado "As Meninas Superpoderosas", feita por Craig McCracken, fez parte da infância de muita gente, inclusive no Brasil. A famosa animação conta a história de três garotas criadas no laboratório do professor Utônio, que, ao fazer um experimento a fim de criar a "garotinha perfeita", derruba acidentalmente o "elemento X" em sua criação, o que causa os superpoderes das meninas. O desenho, segundo Nick Jennings, um dos produtores executivos, sempre esteve à frente de seu tempo. E, realmente, em muitos aspectos, isso é verdade: um dos vilões, Him, é um demônio que usa roupas "femininas" e as próprias protagonistas são mulheres pequenas que parecem ser extremamente frágeis, mas que conseguem dar uma surra em praticamente todos os homens da série.

Em setembro deste ano, foi confirmado pelo CN que haveria uma nova e quarta integrante no tradicional trio composto por Lindinha, Florzinha e Docinho. Desde então, as imagens divulgadas de Blisstina/Bliss, ou como será chamada na adaptação para o português, Estrela, geraram muita especulação acerca do fato dela ser a primeira personagem importante negra do desenho. As críticas sobre o corpo dela ter um formato diferente das demais heroínas, supostamente mais sexualizado, pois tem um quadril maior, foram rebatidas quando o especial foi lançado: o corpo mais maduro é explicado pelo fato dela ser a irmã mais velha. O cabelo liso da personagem também foi questionado, pois esperava-se um cabelo mais crespo, porém, ao que tudo indica, isso poderia ser considerado um sinal de diversidade étnica.

Bliss foi gerada da mesma forma que as outras meninas superpoderosas, através de um acidente do professor envolvendo outro elemento químico, alguns anos antes da criação das meninas superpoderosas. Como não conseguia controlar seus poderes, qualquer emoção que ela tinha, seja boa ou ruim, poderia causar estouros. Após uma de suas explosões, ela some misteriosamente e reaparece em Townsville muito tempo depois, já adolescente, para juntar-se ao seu pai e às suas irmãs mais novas recém descobertas, que ajudarão a menina a provar que já sabe usar suas habilidades.

Bliss, a irmã mais velha das Meninas Superpoderosas. Fonte: Divulgação

A instabilidade emocional da personagem decepcionou muitos fãs e foi interpretada como uma forma de perpetuar a imagem estereotipada de loucura e agressividade que infelizmente vem acompanhando as mulheres negras há muito tempo. É um argumento muito válido, entretanto, outras análises também podem ser feitas. Em um certo momento do desenho, Lindinha explica às irmãs que a dificuldade de Bliss em controlar as emoções é devido apenas ao fato dela estar na fase da adolescência. Além disso, há cenas onde a garota fica paralisada ao passar por situações de tensão e depois "explode", algo que, adicionado às diversas conversas entre as heroínas onde a palavra "ansiedade" é citada, possivelmente seria um indício de que a questão dos transtornos psicológicos seria abordada pela série, o que é um ponto realmente positivo.

Bliss tem uma personalidade "explosiva". Fonte: Divulgação

Desde 2016, quando houve um remake, as questões de gênero e de empoderamento feminino têm sido cada vez mais incorporadas no desenho. A senhorita Belo, a assistente do Prefeito, que era uma personagem incômoda por ser explicitamente objetificada, já que podia-se ver apenas seu corpo curvilíneo e sexualizado, mas seu rosto nunca era mostrado, foi cortada da série. Além disso, há um teaser dos novos episódios, intitulado "Não me chame de princesa", que mostra Docinho batendo em um barbudo que a chama de princesa e a manda brincar de boneca. Quando a heroína o atira para longe de suas vistas, ele diz "você joga como uma garota" e some.

Senhorita Belo, conhecida por nunca mostrar o rosto. Fonte: Divulgação

Blisstina é uma garota forte e incrível que pode ser extremamente importante para as meninas negras que assistem aos desenhos infantis, onde realmente não há muita representatividade, e a inclusão da questão do empoderamento feminino incentiva as pequenas a serem tudo que elas quiserem ser. O especial que apresentará a personagem, chamado "As Meninas Superpoderosas: O Poder das Quatro", está dividido em cinco capítulos e será lançado dia 19 de outubro, às 19h30, no Cartoon Network Brasil. Esperamos que ela fique permanentemente na série, mas não há nada confirmado ainda.

Raw e o tabu feminino

13 de outubro de 2017


Por Aline Reis

Vegetariana e caloura na faculdade de veterinária, Justine (Garance Marillier) é obrigada a comer carne crua durante o trote. A partir daí, a garota começa a sentir um desejo avassalador por comer carne, principalmente humana. E com essa premissa a diretora francesa Julia Ducournau nos apresenta Raw (Grave - 2016), utilizando da metáfora para explorar questões como a puberdade feminina e o afloramento dos desejos sexuais.

Foto: Reprodução
Justine é uma adolescente de 16 anos que acabou de entrar na faculdade. Até então uma menina doce e virginal, pela primeira vez ela tem a oportunidade de ser dona de si mesma, longe de qualquer cobrança imposta por seus pais, mas ainda sim sofrendo por todas as expectativas que são colocadas sobre ela. Incentivada por sua irmã, Alexia (Ella Rumpf) - que frequenta a mesma faculdade de veterinária que Justine - a não pular qualquer etapa dessa nova fase - desde o trote até as festas - Justine começa a descobrir quem realmente é, passando pelas inevitáveis mudanças que a transformarão de criança para mulher.

Como uma grande metáfora, Raw faz com que o telespectador se sinta tão angustiado quanto Justine ao não compreender tamanhas mudanças. Todo o momento de transformação pelo qual a garota passa reverbera em seu comportamento e em seu relacionamento com os colegas e família. Inicialmente, ela tenta a todo o custo reprimir tamanhos impulsos, já que até então comer qualquer tipo de carne passava longe do aceitável na realidade em que vivia, mas a transformação aconteceria de qualquer forma, mesmo que ela, sua mãe - que ficava apavorada com a ideia de que a filha comesse carne - ou qualquer outro personagem da trama quisesse evitar, tudo isso simbolizando o receio em relação aos desejos de uma garota que está passando pela fase da puberdade. Além disso, é possível destacar um outro aspecto trazido de forma quase satírica pelo filme, ao levantar a questão de como a mulher é considerada uma espécie de predadora ao apresentar qualquer tipo de desejo sexual, já que Justine sente a vontade literal de comer seu colega de quarto.

Com a inserção na faculdade e a mudança completa de ambiente Justine precisa mudar, mesmo que isso pareça prejudicial. Na trama, sua irmã já aceitou aquela nova realidade e abraçou-a, aprendendo a lidar com ela sem que isso a impedisse de viver uma vida “normal”. É igualmente doloroso para Justine tanto desfazer-se das amarras da pessoa que era no passado quanto aceitar a nova pessoa na qual ela se transformava, já que tudo era um processo de aprendizado, até que ela conseguisse atingir o estágio de sua irmã mais velha.

Mesmo sem a metáfora o filme se sustenta de forma maravilhosa, dosando muito bem a quantidade de cenas mais gore sem perder o ritmo, com um enredo intenso e interessante. A utilização da trilha sonora marcante e em pontos específicos cria cenas memoráveis - como a sequência final, um dos pontos altos da obra e que faz valer toda a experiência.

“Um animal que provou carne humana não é seguro”, como diz o pai de Justine, em uma das cenas do longa. Uma vez que a vida adulta chega, nada consegue impedi-la. Raw utiliza da ficção para retratar uma realidade inevitável, pelas mãos de uma diretora promissora que não utiliza de excessos para contar, de forma mais simples do que parece, a história de uma adolescente, e assim, a história de todas nós.

The Handmaid's Tale: um futuro não tão ficcional

19 de setembro de 2017

Por Aline Reis

Constantes atentados terroristas, fundamentalismo religioso, natureza em um estado caótico causado pela ação humana. Tudo isso parece o resumo do mundo em que vivemos hoje, mas também fazem parte dos acontecimentos que desencadearam a criação da sociedade retratada na ganhadora do Emmy de Melhor Série Dramática, The Handmaid’s Tale.
Baseado no romance homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood, The Handmaid's Tale se passa em Gilead, anteriormente Estados Unidos, e que agora é regido por um sistema totalitário teocrático, construído em um modelo de castas no qual as mulheres são destituídas de qualquer direito – como possuir propriedade, trabalhar ou mesmo ler. Com os baixos níveis de fertilidade, há uma busca por mulheres férteis, as denominadas Aias, que têm como única função a reprodução, gerando filhos para os casais da elite governante. A série acompanha a história da aia Offred (Elizabeth Moss), que  foi obrigada a servir a família de um dos Comandantes após ter a filha e o marido arrancados de si.
  Todo o enredo pode parecer distante da nossa realidade, mas basta fazermos uma pesquisa rápida e podemos encontrar notícias que se assemelham em muitos aspectos com a repressão sofrida em Gilead. A exposição fechada após um boicote, o repúdio contra uma peça na qual Jesus é retratado como uma mulher transexual, a pixação da frase: "Bíblia sim. Constituição não", mostram como os atos de extremo ódio, que em nada se assemelham aos ensinamentos trazidos na Bíblia, ditam, com cada vez mais força, aquilo que pode ou não ser mostrado, aquilo que pode ou não existir, assim como acontece no universo da série.
O enredo utiliza de flashbacks para mostrar como era o “mundo de antes” e o desenrolar das medidas que resultaram na nova sociedade repressora de Gilead. Um dos pontos mais interessantes é o incentivo da rivalidade feminina como forma de dominação. As Esposas consideram-se inferiores por serem inférteis, mas ocupam uma posição social superior em relação às outras mulheres; entre as próprias Aias, aquela que de fato consegue engravidar é encorajada a portar-se de forma diferente, como se recebesse uma grande dádiva; entre as Esposas, aquela que consegue um filho por meio de sua Aia, recebe um prestígio social invejado. Enquanto são incentivadas a lutarem umas contra as outras, os homens mantêm o sistema repressivo e fazem valer seus próprios interesses.

Offred, interpretada por Elizabeth Moss. Foto: Reprodução
Em The Handmaid’s Tale, as mulheres não tiveram escolha. Serena Joy (Yvonne Strzechowski), esposa do Comandante de Offred, é uma das personagens mais interessantes de toda a trama. Anteriormente ao regime de Gilead, Serena era uma grande ativista e defensora de ideais conservadores, que exigiam a volta da mulher ao espaço recluso da casa, à posição servil ao marido e às atividades como reprodução e cuidado integral da família. Ela era uma grande oradora, escrevendo livros e dando palestras nas quais defendia seu posicionamento. Após a instauração do novo regime, Serena Joy obteve tudo aquilo pelo qual outrora lutara, porém, deparou-se com uma realidade muito mais opressora do que ela mesma imaginara – ela também sofre as proibições impostas a todas as outras mulheres. As reações da personagem durante a série deixam claros os seus conflitos internos perante a nova sociedade. 
O papel do homem na instauração do novo regime em Gilead, desde o modelo de castas até a Cerimônia – momento em que a Aia, deitada e com a cabeça repousada nas pernas da Esposa, era penetrada pelo Comandante, na formalização de um estupro com o intuito de gerar um filho para o casal da elite – é largamente discutido na produção. O decorrer da trama discute a verdadeira intenção do grupo de homens, que criou e instituiu o novo governo, mas não perdeu nenhum dos seus direitos. Além disso, a série mostra como práticas comuns ao “mundo de antes” mantêm-se para satisfazer aqueles no poder, a exemplo das casas noturnas, que são estritamente proibidas no novo regime, mas continuam existindo e são frequentadas por Comandantes e diplomatas.

A Cerimônia. Foto: Reprodução
A série discute diversas outras questões, como o papel das mulheres na maternidade, as relações heterossexuais e a perpetuação de práticas patriarcais que independem da sociedade ou do regime, por mais religioso que ele seja. Essas questões precisam ser discutidas hoje, não tratadas com menor importância ou como um atentado aos “bons costumes”, tão grandemente defendidos. Essas questões existem, e ninguém pode dizer o contrário. Talvez a nossa república de Gilead não esteja tão distante assim, e isso é o que faz de The Handmaid’s Tale uma série tão assustadora e importante.

Beverly Marsh, de "It", merece mais atenção

14 de setembro de 2017

Por Amanda Leite

Sophia Lillis como Beverly Marsh. Fonte: Adoro Cinema

      Desde a estreia de “It – A Coisa” nos cinemas brasileiros, pipocaram críticas sobre o filme e a brilhante atuação das crianças. Entre elas, destaco especialmente a atriz Sophia Lillis, de apenas 15 anos, que vive uma das personagens mais interessantes da história.
       O filme se passa no ano 1989 em Derry, uma pacata cidadezinha do interior marcada por grandes acidentes e inúmeros desaparecimentos. A trama se inicia quando Georgie (Jackson Robert Scott), um garotinho simpático e irmão caçula de Billy (Jaeden Lieberher), desaparece enquanto brinca com seu barquinho de papel. A partir de então, um grupo de sete pré-adolescentes autointitulado "Clube dos Perdedores" inicia uma jornada atrás do monstro que, a cada 27 anos, sequestra dezenas de crianças.
        Logo nos primeiros minutos, conhecemos Beverly Marsh. Trancada em uma cabine do banheiro da escola, a garota com pose de rebelde ouve uma das alunas xingá-la por ter, aparentemente, trocado alguns beijos com um outro menino. Logo em seguida, chega em casa onde encontra a figura perturbadora de seu pai. Aos poucos, conhecemos melhor sua personagem e nos profundamos em uma das histórias mais densas do filme.
       Para fugir dos spoilers, resumo a atuação de Sophia Lillis como surpreendente e indispensável para o desenrolar da trama. Embora seja resumida como a "menina diferentona e carismática que se junta ao bando" (G1), com apenas 13 anos, Beverly tem uma coragem invejável e uma presença fortíssima, ainda que seja repetidamente chamada de vadia e humilhada até mesmo por adultos.
O "Clube dos Perdedores". Fonte: Divulgação
       Com um histórico mais assustador que o próprio palhaço Pennywise, que inclui abuso sexual e bullying, Beverly se desenvolve, amadurece e cativa o público com sua pegada independente. Uma garota forte que, embora fictícia, deveria ser admirada e exaltada pelo público que a prestigia. Resumi-la simplesmente como uma garota com "uma vida sexualmente ativa" (Adoro Cinema) é ignorar a profundidade que sua personagem e seu olhar carregam durante o filme. É impossível não se surpreender com suas ações e de, no fundo, não pensar: "que menina foda!".
       Muito bem dirigido por Andrés Muschietti, a nova versão do clássico de 1990 assusta e cativa na medida certa. A presença de Finn Wolfhard, de "Stranger Things", traz a leveza e o humor que completam o filme e o transforma em uma obra-prima. As cenas de terror assustam mais pela violência tão explicitamente retratada, mas são igualmente bem-feitas e aceitas pelo público.
       Diferentemente de sua versão mais antiga, o filme promete ainda uma continuação, que englobará a vida adulta dos personagens - o que, até o momento, agradou a maioria dos fãs. "It - A Coisa" já quebrou recordes apenas na sua primeira semana de estreia e com certeza marcará a história do cinema internacional.

Crítica: The Babadook (2014)

5 de setembro de 2017

Por Roberta Domingues

Imagem: reprodução


The Babadook (em português, Senhor Babadook) é um filme de terror australiano e canadense de 2014. Dirigido por Jennifer Kent, ele conta a história de uma entidade que assombra uma mãe e seu filho.

Samuel (interpretado pelo jovem Noah Wiseman) é um garoto de seis anos que tem pesadelos constantes e imagina monstros em seu quarto, a ponto de construir armas para combatê-los. Sua mãe, Amelia (Essie Davis), tem dificuldades para manter o garoto e sua imaginação sob controle. Certa noite, Samuel pede para a mãe ler um livro antes de dormir, e pega o livro The Babadook de sua estante. O livro conta a história de um ser que passa a atormentar as pessoas uma vez que elas tomam consciência dele. Perturbada com a história, Amelia descarta o livro. Eventos estranhos começam a acontecer pela casa, e Samuel fica convencido de que o Babadook é o monstro e está perseguindo sua família.

Noah Wiseman é um excelente ator para sua idade, sabendo interpretar uma criança assustada, porém genial, com facilidade. Seus diálogos não são forçados e soam muito naturais. Essie Davis consegue interpretar uma mãe solteira com a dose certa de melancolia, sem fazer a personagem parecer uma coitada, mas ainda mostrando a realidade de ter que cuidar de um filho sozinha. Sua atuação no decorrer do filme só melhora.

Sobre o filme em si, podemos dizer que tem começo, meio e fim muito bem conectados. Samuel já vê monstros antes mesmo de Babadook ser apresentado, o que faz com que sua mãe não o leve a sério; por outro lado, faz o começo não parecer tão "brusco" como em outros filmes de terror, em que as pessoas só começam a ter experiências a partir de certo marco (se mudar para uma casa assombrada, por exemplo). O final é surpreendente se comparado aos tradicionais filmes de entidades; tudo é resolvido, mas não do jeito que se espera. O filme também tem metáforas interessantes a respeito da morte.

Em entrevista a Paul MacInnes, do The Guardian, Jennifer Kent diz que não vê The Babadook como um filme de terror em si: "Eu acho que o terror se supera quando se torna emocional e visceral. Nunca se tratou de ser 'Oh, quero assustar as pessoas'. Queria mesmo falar da necessidade de encarar a  escuridão em nós mesmos e nas nossas vidas. Essa foi a ideia central para mim, de pegar uma mulher que esteve se esquivando de uma péssima situação por anos e fazê-la enfrentar isso cara a cara. O terror acabou por ser só uma consequência."

Amelia ganha créditos por ser uma personagem muito real. Diferentemente de vários outros filmes do gênero, ela tem um emprego, um filho, contas a pagar, e relacionamentos conflituosos com as pessoas ao seu redor. Amelia não é somente a mãe do lar, mas a que faz do filme um verdadeiro terror psicológico e de crescente tensão.

No site de críticas Rotten Tomatoes, o filme conta com 98% de aprovação pela equipe e 72% pelo público. O filme está disponível na Netflix Brasil.


Ficha técnica do filme

Diretor: Jennifer Kent
Escritor: Jennifer Kent
Atores: Essie Davis, Noah Wiseman
Gênero: Drama/Terror
País: Austrália, Canadá
Áudio original: Inglês
Data de estreia: 22 de maio de 2014
Filmagem: Adelaide, Austrália
Duração: 93 minutos
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