Entre o natural e o cirúrgico: como o Brasil enxerga o parto humanizado e a cesárea
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| Brasil é campeão de cesáreas no mundo. Fonte: Portal UOL |
"Eu tinha tudo para ter um parto normal, mas a possibilidade do cordão estar em volta do pescoço da criança me dava muito medo. Ninguém me tranquilizou em relação a isso", conta Patrícia Alves (29) que há três anos teve sua primeira filha. "A verdade é que os médicos de plano de saúde não tem interesse em fazer parto normal". A história de Patrícia é muito semelhante a de outras tantas mulheres: atualmente, mais de 86% dos partos realizados no país pela rede particular foram cesárea, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que essa taxa caminhe por entre os 10% ou 15%.
Se partir para a cirurgia não é o recomendado, por que no Brasil se realizam tantas cesáreas? De acordo com especialistas, durante os anos 90, a cirurgia ficou conhecida como um procedimento "dois em um": durante o parto, já se esterilizava a mulher que não queria ter mais filhos. Hoje, os motivos são outros: marcar uma cesárea é mais cômodo para o médico, que pode se programar, evitando ligações inoportunas no meio da noite ou horas acompanhando um trabalho de parto - além de lucrar mais, podendo realizar várias cirurgias em um único dia. Para isso, a indústria vendeu uma imagem que convencesse a mulher a escolher se submeter a cesárea. "A mensagem enviada pela comunidade médica é que a cesariana é uma forma de parto mais moderna e higiênica, enquanto o parto normal é feio, primitivo e sujo", diz Simone Diniz, do departamento de saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à BBC Brasil. Ela acredita que muitas mulheres se sentem pressionadas a optar pela cirurgia, tornando a indústria em torno dos partos uma "máquina de fazer dinheiro".
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| Patrícia Alves no dia do nascimento de sua filha Isabela. Fonte: Arquivo Pessoal |
Para Alves, o anseio do parto normal ultrapassava o medo da dor: "Eu tinha pavor da episiotomia, e não sabendo da opinião do meu ginecologista, optei pelas lacerações normais", contou. "Tem médico que faz isso [a episiotomia] de rotina". Episiotomia é uma incisão efetuada na região do períneo para ampliar o canal de parto e é recomendada em casos específicos, como necessidade de parto instrumentalizado ou sofrimento fetal. "Hoje sei que o ato sem consentimento é crime, mas conheço várias mulheres que passaram por isso", acrescenta.
A violência obstétrica no parto normal afeta milhares de mulheres e assusta tantas outras. Entretanto, são poucas que enxergam os abusos em um momento em que estão tão fragilizadas: "Elas não conseguem reconhecer a violência, pois já estão muito ligadas a um certo lugar da mulher na cultura. A mulher está acostumada ao corpo dela ficar muito à mercê do outro. Só na medida em que elas descobrem que o parto poderia ser de outra forma é que compreendem o que sofreram", explica a psicóloga Vera Iaconelli, diretora do Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal - Gerar. "Intervenções desnecessárias ou desculpas esfarrapadas acontecem mesmo, é preciso se proteger", afirma Alves, que hoje acredita estar mais informada em relação ao parto normal e seus direitos.
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| Protesto contra parto forçado em São Paulo. Fonte: Zanone Fraissat/Folhapress |
Embora a cesárea ainda esteja muito presente no Brasil, cada vez mais surgem novos movimentos que defendem o parto normal e prometem quebrar com a hegemonia das cirurgias. Em 2015, a lei que defende o parto humanizado no Sistema Único de Saúde (SUS) foi finalmente conquistada, depois de muita pressão e protesto. Antes, para ter acesso a esse tipo de parto, a gestante precisaria desembolsar quantias enormes ou depender do plano de saúde. Graças a essa lei, o parto humanizado, que não se limita apenas ao nascimento do bebê, mas sim a todo processo da gestação, o momento em que se dá à luz e o pós-parto, foi democratizado e agora dá liberdade para a mulher escolher que tipo de experiência deseja viver.
Mesmo com tantas mudanças, tanto jurídicas como culturais, o parto normal ainda carrega tabus e assombra milhares de mulheres, que se veem rendidas à cesárea. A saúde feminina se transformou em um mercado extremamente lucrativo e, contra isso, a informação continua sendo a maior aliada para se destruir a mão de ferro que o capitalismo impôs sobre aquelas que engravidam.
Fonte: BBC Brasil, Bebê.com e Folha de S.Paulo.



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