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Os EUA pós-guerra sob o olhar de Robert Frank

11 de outubro de 2017

Por Thays Reis

A mostra do fotógrafo Robert Frank apresenta uma visão pessoal dos EUA. Foto: Divulgação

Uma visão autoral dos EUA após a Segunda Guerra. Esse foi o resultado do trabalho de Robert Frank, um fotógrafo suíço que viajou durante nove meses de carro pelos arredores dos EUA, após ganhar uma bolsa da instituição John Simon Guggenheim Memorial Foundation para fazer "o estudo de uma civilização". Robert ultrapassou esse limite e criou um clássico da fotografia do século XX.

Os americanos, publicada em 1958, virou referência para várias gerações de criadores e tornou Robert Frank um nome de peso da fotografia e do cinema contemporâneo. A exposição, que trata sobre exclusão social, racismo, pobreza e ostentação, relação entre homem e mulher, aborda também a vida boêmia, as estradas e a cidade, mostrando o melhor e o pior da vida nos EUA de forma crítica e observadora.

Exposta no Instituto Moreira Salles (IMS), a exposição Os americanos + Os livros e os filmes traz pela primeira vez ao Brasil uma retrospectiva ampla do trabalho de Robert Frank. A união entre as 83 fotografias que compõe a série Os americanos com o projeto Os livros e os filmes, produzido em parceria com o editor alemão Gerhard Steidi, formam a incrível exposição.

Uma das folhas de contato de Robert Frank presente na amostra

Mais do que fotorreportagem ou um projeto documental comum, Robert Frank traz a sua visão e observação pessoal para contar uma história da vida americana sem o uso da palavra, privilegiando a vivacidade e as experiências pulsantes na escolha das fotos, processo que pode ser observada nas folhas de contato do fotógrafo, também presentes na exposição, que mostram as fotos escolhidas marcadas em colorido.

Imperdível, a mostra é gratuita e está aberta para visitação até 30 de dezembro, de terça a domingo, das 10h às 20h; quinta, das 10h às 22h; e aos feriados (exceto segunda), das 10h às 20h.


SOBRE ROBERT FRANK

Filho de judeus, Robert Frank nasceu em Zurique, Suíça, em 1924. Seu pai, que havia se tornado sem pátria durante a Primeira Guerra Mundial, lutou para que Robert e seu irmão Mandred adquirissem nacionalidade suíça. Durante a Segunda Guerra e a ameaça nazista, Robert se sentia muito ameaçado, apesar de estar em segurança, e seu interesse pela fotografia nasceu da vontade de expressar essa angústia, além de mudar do ramo de negócios da família. Foi ensinado por alguns fotógrafos e designers até publicar seu primeiro livro de imagens feito à mão, chamado 40 fotos, de 1946.

Retrato de Robert Frank Foto: Koos Breukel, 1996

Em 1947 migrou para os EUA e começou a trabalhar na Harper’s Bazaar Life, uma revista de moda e beleza, que logo deixou para visitar os continentes europeu e sul-americano. Voltou aos EUA em 1950 e logo participou da exposição 51 American Photographers no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque), além de se casar com Mary Lockspeiser, com quem teve dois filhos, Andrea e Pablo.

Robert possuía uma visão otimista dos EUA, até ser obrigado a se adequar ao ritmo rápido da cidade, onde observou também a supervalorização de posses e do dinheiro. Tornou-se frustrado também com a interferência dos editores no seu trabalho e começou a ver o país como um lugar triste e solitário. Se mudou então com a família para Paris por um breve período e em 1953 começou a trabalhar como jornalista freelancer parar revistas como Vogue, Fortune e McCall.

Em 1955 Robert recebeu a bolsa para viajar os EUA e realizou essa incrível obra que se tornou um marco para a fotografia. Com a publicação, Robert se tornou um dos principais artistas a registrar a geração – ou movimento – beat, composto por jovens norte-americanos, majoritariamente escritores e artistas, que eram nômades ou fundavam comunidades e inspiraram o futuro movimento hippie, ambos compondo a contracultura.

Na época de lançamento da obra, Robert deixou a fotografia de lado para se dedicar a produções audiovisuais, como o curta Pull My Daisy (1959), escrito e narrado por Kerouac e o documentário Cocksucker Blues sobre a turnê mundial dos Rolling Stones de 1972.

CRÔNICA: quem precisa de cura é o preconceito

10 de outubro de 2017


Por Marjorie Wartanian

Doença 
substantivo feminino

1.
med alteração biológica do estado de saúde de um ser (homem, animal etc.), manifestada por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não; enfermidade, mal, moléstia."o câncer é uma d. de difícil cura"


2. 
p.ext. alteração do estado de espírito ou do ânimo de um ser."sua tristeza era uma d."


3. 
fig. mania, obsessão, vício."o jogo era a sua d."


Foto do site G1 - Manifestação contra a "Cura Gay" em 21 de setembro


Brasil, 15 de setembro de 2017. Neste dia mais um retrocesso aconteceu no país do carnaval. "Quem o causou?" O preconceito, caro leitor. No entanto, quem, de fato, tornou esse preconceito "palpável" – está lá, no papel – foi Waldemar Cláudio de Carvalho – ele não é o protagonista da história toda, mas sua decisão me deu o assunto desta crônica –, juiz da 14ª vara do Distrito Federal. Esse senhor, que deve ser chamado de meritíssimo no Tribunal, concedeu uma liminar que torna legalmente possível que psicólogos ofereçam pseudoterapias de reversão sexual. Explicando em palavras cotidianas, ele concedeu uma liminar que assume a homossexualidade como um problema e oferece uma cura para ela.

Quando vão entender que homossexualidade não é doença? Coloquei a definição nesse texto, leitor, justamente para que fique claro o não pertencimento da homossexualidade ao grupo de alterações chamadas de doença. Homossexualidade não mata, não altera o estado do ser. O que mata é o preconceito. Ele mata uma pessoa LGBT a cada 25 horas. São 350 mortos por ano. O preconceito com o diferente, com o que não segue o padrão homofóbico da sociedade Brasileira.

A homofobia não consiste só no ódio – gritado aos quatro ventos – e na violência física. Você é homofóbico quando faz aquela piadinha com os amigos ou quando usa a palavra "viado" para xingar alguém. A homofobia está escancarada na liminar concedida pelo juiz do começo do texto. Ao propor uma cura ele automaticamente encarou a homossexualidade como doença. Se não fosse encarnada como doença não precisaria de uma cura!!! Quando o indivíduo sofre todos os dias com o discurso de que ele está errado por ser como é ele vai acreditar que está errado – é a frase "uma mentira dita várias vezes torna-se verdade. Essa crença fará com que ele ache problemas na sua essência e, por pressão social, familiar ou de qualquer tipo, vai se tratar. Assim, a decisão do juiz permite que a sociedade faça um homossexual achar que está errado e procurar uma cura para si mesmo. PROCURAR UMA CURA PARA SI MESMO!

O ponto em que eu queria chegar com esses três parágrafos de texto era: a culpa não é do juiz. Ele apenas seguiu os valores da maioria da sociedade brasileira: conservadora, machista, racista e homofóbica. Sociedade essa que mata, oprime e é violenta com os homossexuais. Por fim, leitor, deixo aqui um desabafo e uma revelação. O primeiro: sou mulher, sou oprimida todos os dias e me sinto péssima com cada opressão diária – se você que está lendo for mulher você vai me entender. Não consigo imaginar alguém que consiga sofrer o dobro do que eu sofro com as opressões – como os gays. O segundo: no começo desse texto, quando o planejei, eu tinha o intuito de falar apenas sobre o juiz e sua decisão... ao decorrer do texto fiquei presa na homofobia – que parece um assunto superado. Mas como falar do juiz e não falar da questão básica que o levou a tomar essa decisão?! O preconceito. É ele que precisa de cura.

O filme que nem parece que é brasileiro

9 de outubro de 2017

Por Guilherme Queiroz 
      
O cinema nacional nunca foi muito prestigiado pelos próprios brasileiros. Claro que isso não quer dizer que nossas produções cinematográficas não sejam de qualidade, muito pelo contrário, existem obras primas nacionais, e que são conhecidas internacionalmente e premiadas. Podemos citar, os clássicos como O Auto da Compadecida, Cidade de Deus e Tropa de Elite. Contudo, sempre que uma grande produção brasileira ganha destaque, ouvimos uma frase que especialmente me incomoda muito: "Nossa que filme bom, nem parece que é brasileiro".
Nem parece que é brasileiro. 

Recentemente, um dos filmes que teve a enorme honra de receber esse tipo de comentário foi "Bingo: O Rei das Manhãs". Dirigido por Daniel Rezende e tendo como protagonista Vladimir Brichta, o longa-metragem foi muito bem recebido. A história se passa nos anos 80 e é uma cinebiografia de Arlindo Barreto, que interpretava o palhaço Bozo nas manhãs do SBT. O nome do palhaço e do ator precisaram ser mudados por uma questão de direitos autorais, Arlindo virou então Augusto Mendes e Bozo se transformou no Bingo.

Vladimir Brichta caracterizado como Bingo. Fonte: Imagem do vídeo divulgado pela Warner Bros.

Por uma questão de confidencialidade presente no contrato de Augusto, a identidade real do palhaço não podia ser revelada. O que causa diversos transtornos na vida do ator, tanto pessoais quanto profissionais, e a enorme carga de trabalho com a consequente fama transforma o antigo protagonista de pornochanchadas em um viciado em drogas, desde o álcool até a cocaína.

Parece um pouco dramático não é mesmo? E é, só que de uma maneira muito diferenciada. Somos mergulhados no universo bizarro de Bingo, e muitas vezes confundimos o palhaço com Augusto Mendes, tanto que podem ser observadas a incorporação de características do palhaço ao ator. Podemos observar um personagem cheio de camadas, que estão sempre dialogando. Muitas vezes somos forçados a pensar um pouco mais para entender o filme, a divagação mental do protagonista é incorporada ao filme, o que trás momentos de tensão e riso.

O diálogo entre o drama e o cômico é feita de uma maneira bem equilibrada, deixando a identificação do espectador com a obra mais fácil. Além disso, a fotografia e a trilha sonora foram desenvolvidas de uma maneira maravilhosa, e dialogam entre si. A caracterização do figurino e o cenário para os anos 1980 foi feita de uma maneira minuciosa, e o cuidado foi tomado até mesmo nas imagens aéreas da cidade de São Paulo.

Uma obra inovadora, e que mostra que o cinema nacional vem ganhando força. Triste é ouvir comparações com filmes americanos, ou ouvir que o filme nem parece que é brasileiro. Se não fosse brasileiro, não seria tão maravilhoso.

Trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=hidcxSOQ_Gg&t=

O Islã na Europa e no mundo

Por Roberta Domingues


A relação do Islã com a Europa é mais antiga do que muitos pensam.

A história começa no século VIII, ano de 711, com a famigerada “Invasão Moura” na Península Ibérica, região que abriga Portugal e Espanha. Os mouros eram um povo africano islamita que viviam onde é o Marrocos, e “invadiram” a Europa sem enfrentar muita resistência por parte dos habitantes. Seu domínio durou cerca de 780 anos, com a queda definitiva em 1492.

Apesar da retirada dos muçulmanos da Península, sua influência continuava firme e forte por toda a região. Sendo um dos polos da ciência na época, os povos muçulmanos trouxeram consigo grandes avanços na área da matemática, astronomia, medicina, náutica e arquitetura. Eles também são pais de instrumentos que posteriormente seriam fundamentais para as Grandes Navegações do século XVI, como o astrolábio e a bússola, além de serem ótimos cartógrafos frequentemente contratados pela monarquia européia.

Mapa-múndi feito por Muhammad al-Idrisi (1110-1165) a pedido do rei Rogério II da Sicília. Foto: historiadacartografia.com.br


Arquitetura Moderna

Construído no século XIX, o Palácio Nacional da Pena, em Sintra, Portugal, tem como inspiração a arquitetura árabe. É possível identificar tais características em suas formas arredondadas e tetos abobadados, nos beirais, nas torres e nas vibrantes cores de todo o palácio.

Palácio Nacional da Pena, em Sintra, Portugal. Foto: Roberta Domingues.

Os beirais e tetos abobadados são uma referência ao estilo árabe. Foto: Roberta Domingues.

Cores fortes e curvas marcam a influência árabe nas construções em Portugal. Foto: Roberta Domingues.

Ainda em Portugal, ao visitar o Palácio da Bolsa, na cidade do Porto, é possível entrar em uma sala exuberante chamada Salão Árabe. Coberto de ouro, a história diz que os nobres da época pediram a construção desse salão para exibir seu poder econômico. Os detalhes nas paredes são repletos de marcas muçulmanas, como alguns escritos em árabe que dizem "glória a Alá" e "Alá acima de tudo".

Salão Árabe, no prédio do Palácio da Bolsa, no Porto, em Portugal. Foto: Roberta Domingues.

Os detalhes minuciosos e os vitrais coloridos lembram a arquitetura árabe. Foto: Roberta Domingues.


O Islã atualmente

Assombrados por guerras, os países do Oriente Médio veem uma fuga em massa de sua população, de maioria muçulmana, para outros países, em especial para a Europa. Devido aos recorrentes ataques terroristas pelo mundo, junto com essas pessoas chegou o estigma e o medo do “árabe terrorista” entre os milhares de refugiados. Muitos países — como a Hungria, a Polônia e a República Tcheca — se recusaram a aceitar e dar refúgio, enquanto outros países como a Alemanha e o Reino Unido abriram suas fronteiras e viram a chegada de afeganistãos, paquistaneses e sírios, estes sendo mais de 5 milhões pelo mundo. Após fortes críticas tanto da União Europeia quanto da ONU, os países citados aceitaram receber refugiados.


Gráfico: BBC e UNHCR

Gráfico: BBC e Eurostat


A situação dos refugiados tem ficado ainda mais difícil tendo em vista o atual crescimento do conservadorismo no mundo inteiro, como podemos observar nos crescentes números da extrema-direita alemã. Junto com o conservadorismo andam a xenofobia e a islamofobia, os movimentos de ódio, o patriotismo exacerbado e até agressões verbais e físicas contra os imigrantes. No Brasil, as religiões de matriz africana também sofrem com o conservadorismo.




A religião que mais cresce

Uma matéria da revista Exame sobre uma pesquisa feita pelo Pew Research Center, nos Estados Unidos, mostra que o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. As famílias muçulmanas têm, em média, 3,1 filhos, enquanto as famílias de outras religiões possuem 2,3 filhos. Ou seja, os estudos mostram que até o final do século é provável que os muçulmanos superarão os cristãos como o maior grupo religioso do planeta.

Hoje, 1,6 bilhão de pessoas se consideram muçulmanas. Diferentemente do que é pensado, a maior parte dos islamicos não vivem no Oriente Médio (20%), mas sim no norte da África e na região da Ásia-Pacífico (62%). O maior país muçulmano do mundo é a Indonésia, que tem 88% de sua população seguindo o Islã, segundo o censo de 2000.

Nos Estados Unidos, os muçulmanos são 1% da população. A pesquisa aponta que, até 2050, o grupo pode se tornar a segunda maior religião do país, representando 2,1% dos habitantes. Na Europa, as estimativas são de que 10% da população seja muçulmana até 2050.


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Foto: Google imagens

Na América do Sul é possível ver o Suriname como país com maior concentração islamita, seguido pela Guiana e Guiana Francesa. A Argentina também vê um crescimento de muçulmanos em sua população. No Brasil, são 35.167 pessoas que se declaram adeptas da religião, segundo dados do censo de 2010. No entanto, outras instituições estimam cerca de 1,5 milhões de islâmicos.


Fontes: Palácio da Pena, BBC, Carta Capital, Cultura da Indonésia, Islamismo no Brasil, Exame, Mundo Estranho

Editorial: O conservadorismo e a censura na arte

8 de outubro de 2017

A atriz Renata Carvalho na peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" Fonte: Lígia Jardim/Divulgação

Dentre tantos acontecimentos e polêmicas, o mês de setembro ficou marcado pela censura à arte e pela força com que o moralismo voltou aos palcos. A peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, agendada para o dia 15 de setembro no Sesc Jundiaí, viu seu cancelamento decretado pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior que considera que entes religiosos não podem ser "expostos ao ridículo". O advogado responsável pelo pedido da suspensão das apresentações classificou o espetáculo como "dejeto cultural" e "ultraje" ao cristianismo. O espetáculo, um monólogo que recria a história de Jesus como uma transexual, propõe uma reflexão sobre a intolerância em questões ligadas à orientação sexual.

Em contraste, a Justiça do Rio Grande do Sul, em uma correta decisão, frustrou a tentativa de proibição da peça. O juiz José Antônio Coitinho se recusou a vetar o espetáculo que, conforme ressaltou, está submetida a classificação etária e é apresentada em local fechado. Uma verdadeira defesa da liberdade de expressão.

Ainda na cidade de Jundiaí, a peça A Princesa e a Costureira sofreu com protestos, vindos até mesmo do prefeito da cidade, Luiz Fernando Machado. Em publicação em sua página oficial, o prefeito declara que a peça "cuja temática  é contrária" ao que sustenta como "pai, esposo e prefeito" não possui nenhuma verba pública e ainda que não permitirá nenhuma distribuição de material relacionado nas escolas municipais da rede pública. "Conto com o bom senso dos pais e mães de família de Jundiaí", termina o prefeito. A peça propõe uma mudança no roteiro das histórias clássicas e conta a história de uma princesa que, ao invés de se apaixonar pelo príncipe, encontra o amor em uma costureira.

O conservadorismo não reside apenas em Jundiaí. No dia 10 de setembro a exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira que estava em exposição há quase um mês no espaço Santander Cultural, em Porto Alegre, e reunia obras de artistas renomados em torno da temática de gênero, foi cancelada pelo banco após uma série de protestos. É a prova de que nem a iniciativa privada escapa de ações inspiradas em moralismo.

Tais censuras no ramo da arte são o reflexo claro de uma sociedade que cada vez mais pende ao conservadorismo. Grupos como o MBL (Movimento Brasil Livre) exercem uma considerável pressão nos meios digitais e arrastam cada vez mais seguidores, até mesmo em altos cargos da política. O boicote proposto por esses grupos é uma manifestação legítima, concordando-se ou não, assim como cancelamentos realizados por entidades organizadoras da esfera privada.

No entanto, casos como a declaração do Sr. Prefeito Luiz Fernando Machado entre outros da esfera pública constituem como uso abusivo e intolerável do poder do Estado contra a liberdade de expressão e vão contra os princípios da democracia e do texto constitucional, o que é, melhor dizendo, uma censura escrachada.

Mais uma guerra esquecida na África

7 de outubro de 2017

Por Carolina Avólio

Soldados da etnia nuer protegem civis enquanto caminham por área alagada. (Foto: Matthew Abbott)

Quando falamos sobre conflitos no continente africano, alguns países imediatamente vêm a nossa mente – Congo, Nigéria, Somália, Etiópia, Argélia, Uganda, entre outros. Mas um país passa abatido pela mídia: o Sudão do Sul, onde ocorre uma das mais sangrentas guerras já vistas em território africano, agravada pela fome e a miséria dominantes na região. 

Sudão do Sul, um panorama

O país mais novo do mundo (separou-se do Sudão em 2011) sempre foi marcado pela violência. Para entender a persistência dos conflitos, é necessário voltar à época da guerra civil contra o Sudão. Em 2005, foi assinado o Tratado de Naivasha, cessando os ataques dos sudaneses contra os separatistas, o primeiro grande passo rumo à independência. Num território desenhado pelas mãos imperialistas, várias regiões foram focos de conflitos étnicos e apenas dois grupos foram inclusos na nova fase política – e mesmo assim com divergências entre Salva Kiir e Riek Machar, líderes do Movimento Popular de Libertação do Sudão. 

Com a independência finalmente conquistada em 2011, Kiir foi eleito presidente e Machar, vice. No entanto, o plano político adotado deixou a desejar. “As políticas de desenvolvimento do Sudão do Sul, de sua independência até o início do conflito em dezembro de 2013, consistiram basicamente em dar dinheiro para as pessoas e permitir que as demais aproveitassem qualquer oportunidade para faturar, alimentando a corrupção. Isso fez o presidente ser desafiado por Machar e outros políticos que querem ter a chance de comandar”, analisa Nestor Kasfir, professor da Universidade de Dartmouth (EUA) e especialista em política sul-sudanesa. 

Diante do impasse, o presidente acusou Machar de “tramar um golpe de Estado” e o destituiu do cargo em julho de 2013, causando a faísca necessária para o incêndio começar. Além da questão política, a questão étnica também estava em jogo – o presidente pertence à etnia dinka, enquanto o ex-vice pertence à etnia nuer. As milícias se organizaram e no mesmo dia teve início um conflito armado na capital, Juba. 

Fome

O conflito impede a chegada de alimentos, afetando até mesmo as regiões que se encontram em paz. Além disso, o país passa por uma grave seca, o que fez com que as colheitas não fossem suficientes para alimentar a população. O pouco que foi colhido não consegue chegar à outuras áreas, já que a maioria das estradas está bloqueada devido aos confrontos. A ONU afirma que situação é de “insegurança alimentar grave”, visto que 4,6 milhões de pessoas (mais de um terço da população) estão passando fome e a UNICEF estima que 270 mil crianças estejam gravemente desnutridas. A tendência é que o cenário piore, pois as próximas colheitas estão previstas apenas para novembro.

Outro agravante é a situação econômica. O país, rico em petróleo, decidiu paralisar a produção do óleo, que realizava em conjunto com o Sudão, local que possuía a infraestrutura necessária, como oleodutos, refinarias e portos do Mar Vermelho. Desde que a commodity – que representava 98% da receita pública do país – foi abandonada, a crise generalizou. Não há emprego, a inflação atingiu os 800%, com 120 libras sudanesas valendo 1 dólar e portanto, o acesso à comida ficou ainda mais difícil.

Criança desnutrida recebendo atendimento no acampamento da organização Médicos Sem Fronteiras em Minkamman. (Foto: JM Lopez)

A maior crise de refugiados da África

"Nenhuma crise atual de refugiados me preocupa mais que a do Sudão do Sul", disse Valentin Tapsoba, diretor para a África do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Considerada a maior onda de refugiados da África e a terceira maior do mundo (perdendo apenas para a Síria e o Afeganistão), mais de 1,5 milhão de pessoas já fugiram do país, distribuindo-se entre Sudão, Etiópia, Quênia, Uganda, República Centro-Africana e República Democrática do Congo, sem contar 2,1 milhões de pessoas que estão deslocadas no próprio território, carecendo de proteção das Nações Unidas.

Infância perdida

Quase uma em cada cinco crianças foram forçadas a abandonar o país. Não é difícil entender o motivo, visto que elas são as principais vítimas dos ataques. Em maio de 2015, a Unicef denunciou o assassinato de 26 de crianças e o sequestro de dezenas de outras em ataques realizados por grupos armados. As formas de violência variam – assassinatos, estupros coletivos, degolas, castrações etc. Christopher Tidey, chefe de comunicação da UNICEF, contou que em um dos casos “uma menina foi morta porque os agressores não conseguiam decidir quem iria violá-la primeiro”. Testemunhas informaram à UNICEF que a execução de crianças tornou-se comum por ser considerada uma forma de impedir que as próximas gerações se vinguem no futuro. Os que são poupados têm como destino a incorporação forçada nas fileiras dos grupos armados — a ONU estima que existam cerca de 13 mil crianças-soldado combatem no Sudão do Sul. “Não há país”, resume Jhon Khamis ao New York Times, um dos muito sul-sudaneses que perderam a esperança num campo de refugiados.

A polêmica do MAM


Por Lara Sylvia

Performancer Wagner Miranda Schwartz em sua apresentação. Foto por: MAM/Divulgação

Ocorrido em 26 de setembro, o trabalho envolvendo nudez artística realizado na abertura da 35º Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), gerou um caos coletivo e dividiu opiniões. A performance, chamada "La Bête", consistia na coreografia do premiado artista carioca Wagner Miranda Schwartz, que encontrava-se despido e permitia a interação do público, inspirada na série de esculturas "Bichos", de Lygia Clark, que podem ser movimentadas pelos visitantes.

A polêmica foi gerada por filmagens que mostram uma criança acompanhada de sua mãe, a também coreógrafa Elisabete Finger, ajoelhada tocando os pés do artista nu deitado no chão da sala. O museu e o próprio Schwartz foram alvo de ódio nas redes sociais, acusados inclusive de cometer pedofilia ao admitir que a menina tivesse contato com um adulto desnudo.

Still do vídeo em que a menina toca os pés do performancer nu. Foto por: Reprodução
Através da Internet, alguns políticos conservadores, e não-críticos de arte, se manifestaram contra a performance. O deputado Jair Messias Bolsonaro chamou os envolvidos de "canalhas", já o pastor Marco Feliciano de "infelizes destruidores da família" e o senador Magno Malta se referiu ao artista como "um imbecil". Esses se tornaram figuras conhecidas por seus insistentes discursos  racistas e homofóbicos.

Incentivadas pela organização de direita,  Movimento Brasil Livre (MBL), que está fazendo forte campanha contra a apresentação e, inclusive, declarou em sua página que a criança se sentiu constrangida, algumas pessoas protestaram na frente do MAM, dia 30 de setembro, com cartazes sobre erotização infantil e bandeiras do Brasil. Segundo um comunicado do museu, a manifestação terminou em violência: "No sábado, o museu foi palco de novo protesto patrocinado pelo mesmo grupo de indivíduos, que desta vez, além das agressões verbais, cometeram atos de violência física contra visitantes e colaboradores. Em resposta às agressões, o museu registrou dois boletins de ocorrência, nos quais constam também as denúncias de ameaças de danos ao patrimônio e à integridade física sofridas pelo museu, por meio de telefonemas anônimos e mensagens em plataformas de mídias sociais."

Protesto que culminou em agressão na frente do MAM. Foto por: Werther Santana/Estadão Conteúdo

O MAM divulgou uma nota oficial de esclarecimento no
Facebook, onde afirmava que o tema da apresentação estava sinalizado, de acordo com os procedimentos adotados pela instituição. Além disso, era ressaltado que o vídeo não contextualizava a obra, que não possuía nenhum teor sexual, e as más interpretações das imagens se davam pela falta de informação sobre o assunto e a deturpação do contexto.

Em entrevista à Carta Capital,  a especialista em educação sexual e presidente do Instituto Cores, Caroline Arcari, alertou sobre a importância do debate entre pais e filhos, para que não haja nenhuma "confusão quanto ao entendimento sobre consentimento, a diferenciação entre toques de afeto e toques abusivos e os limites quanto à privacidade e segurança em relação ao próprio corpo". 

Quando questionada sobre as medidas protetivas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) contra cenas que possam causar constrangimento ou perturbação, ela explicou que crianças que são criadas em um contexto de rigidez ou conservadorismo familiar podem se constranger, mas crianças que crescem em um ambiente de nudez saudável são capazes de encarar performances como essa de forma natural. 

Como cada caso é muito particular, não é possível afirmar como a criança se sentiu sem perguntar a ela, mas a especialista garante que "a performance em si não apresentava conteúdo erotizado nem fazia apologia à violência sexual" e que "o MAM cumpriu a sua obrigação de sinalizar a nudez artística na performance. O caminho a partir dessa situação deve passar longe da censura e da criminalização desse tipo de arte. A performance não pode ser considerada apologia à violência sexual".

Fontes: Carta Capital, G1, MBL
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