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Massacre do Carandiru: 25 anos de impunidade

6 de outubro de 2017

Por Amanda Leite

Preso segura a Declaração dos Direitos Humanos dois dias depois do massacre. Fonte: Luis Novaes/Folha de S.Paulo
Na segunda, dia 2 de outubro, o “Massacre do Carandiru”, como ficou conhecido o episódio, completou 25 anos. Construído a partir de histórias mal explicadas, crimes impunes e uma tentativa de genocídio, como apontam alguns especialistas, o Massacre do Carandiru teve um total de 111 presos mortos (embora os sobreviventes afirmem que o número ultrapassa os 200) e nenhum policial punido: um evento de violência sem tamanho.

“Foi uma carnificina aquele dia, eu comparo o que aconteceu com Auschwitz [campo de concentração nazista] e outras tragédias que eu via só em filme ou livro”, contou o sobrevivente Sidney Sales ao El País. Por volta das 15h, cerca de três horas antes da carnificina iniciar, o clima era de alegria: estava próximo de acabar mais um campeonato de futebol no pátio. Enquanto isso, corriam rumores de uma briga entre dois líderes, Barba e Coelho, no segundo andar, quando um dos envolvidos se machucou seriamente: “Ele tinha muitos companheiros, e [a penitenciária] deixou ele lá, sangrando no chão. Aí começou a revolta”. Sales afirma, entretanto, que acontecimentos assim, como brigas e rebeliões, eram normais: “Eu já tinha participado de outras duas na Casa de Detenção, então sem novidade”.

De acordo com o Coronel Ubiratan Guimarães, que comandou a invasão da PM no presídio, a ação foi tomada para controlar a revolta que se iniciava – o que, de acordo com os sobreviventes, também era normal. Sales também conta que, à medida que as tropas adentravam, os presos subiam para os andares superiores: “Eles diziam que a polícia não estava usando balas de borracha”, afirma. O homem, que na época tinha 24 anos, correu para sua cela, a 504-E.

Presos levados nus para o pátio. Fonte: Instituto Vladimir Herzog
“Tinha 10 pessoas lá dentro, todas agachadas rezando cada um pro seu deus. Eu não fiz diferente. Me ajoelhei e comecei a orar o salmo 91”, lembra. Quando um dos policiais alcançou o quinto andar e, pela portinhola de abertura da porta, matou um dos presos, o pânico se instaurou: “Estevão morreu do meu lado sem dar um grito, foi morte instantânea. Começou a se formar uma poça de sangue”, conta. O policial perguntou quantos detentos ainda estavam no local. Assustados, se calaram. “Ele disse que ia atirar de novo se ninguém respondesse, e foi aí que eu falei que éramos em 10 lá dentro”, diz.

O policial ordenou todos a saírem, se despirem e caminharem para o pátio. Neste momento, Sales descreve o amontoado de corpos que estiravam no chão, “alguns vivos, gritando e gemendo.” Enquanto descia as escadas, ouviu alguém lhe chamar: “Era um amigo meu. Ele havia sido baleado no rosto e estava totalmente deformado. Não tive coragem de parar para ajudar nem de olhar para ele, estava horrível, um olho havia sido arrancado”.

No caminho, ele ainda assistiu outra atrocidade. Os policias, separados em duas fileiras, batiam nos presos, que iam em direção a um elevador, quebrado devido a rebelião: “Os policiais abriram as portas, e de cada 10 presos que passavam eles empurravam dois ou três no fosso. Imagina, uma queda de cinco andares... Quando vi que estavam fazendo isso mudei meu lugar na fila pra ficar mais perto da escada e escapar do vão”, conta.

O "rio de sangue". Fonte: Revista Superinteressante

Após o massacre, alguns dos sobreviventes foram escalados para retirarem os corpos das celas e levarem ao pátio para então serem enviados ao Instituto Médico Legal (IML). Entre os escolhidos, estava Sales: "Carreguei uns 25 corpos. A gente tentava ignorar os gritos daqueles que estavam vivos. Colocávamos presos mortos em cima deles para ver se paravam de gemer". Ele ainda desempenhava sua função, quando encontrou um presidiário, que cumpria a mesma tarefa que a sua, morto no chão: "Aí eu pensei: ‘pronto, estão fazendo queima de arquivo’”, diz. Ele correu e subiu até o quarto andar. “Vi aquela poça de sangue no corredor, escorrendo pelos degraus e fiquei com medo de colocar o pé”, explica. O HIV, comum dentro do presídio, se disseminou ainda mais com o massacre. O “rio de sangue” foi causado pela quebra dos encanamentos, levando água para todo o local, que logo se misturou por entre os mortos. “Aí eu desviei do quarto andar e subi pro quinto. Quando cheguei lá me deparei com três policiais”, diz. 

“Vai acontecer um milagre na sua vida”, afirmou um dos policiais. “Estou com esse molho de chaves do andar todo aqui. Vou escolher uma. Se bater no cadeado, girar e a porta abrir, você vive. Se não, vou te executar. Você morre aqui mesmo no corredor”. Sales fechou os olhos e rezou. Antes que pudesse terminar a prece, um barulho ecoou: o cadeado da cela 504-E se abriu. “Aí eu entrei. O policial bateu a porta nas minhas costas e eu fiquei lá até o dia seguinte. Tinha umas 40 pessoas lá dentro.”

Coronel Ubiratan prestando depoimento para a Polícia Militar. Em 2006, ele foi assassinado. Fonte: Luis Carlos Murauskas/Folha de S.Paulo
Até hoje, os responsáveis pelo Massacre não foram punidos: embora tenham sido condenados a 632 anos de prisão e a perícia tenha confirmado que a maioria dos 515 tiros disparados tenham sido direcionados ao tórax e à cabeça (um sinal claro da tentativa de matar o maior número possível), os policiais e o Coronel Ubiratan nunca foram julgados. Hoje, 25 anos depois, resta a lembrança, a revolta e a certeza de que o sistema carcerário brasileiro está, há tempos, saturado e inviável.

QUAIS OS NÚMEROS DO MASSACRE?

Fonte: Brasil de Fato

Catalunha: passado, presente e futuro


Por Aline Reis

O separatismo não é uma questão nova ou exclusiva da Catalunha. O referendo unilateral do último domingo (1) e a forte repressão policial que se seguiu deram um novo fôlego às discussões de um assunto muito antigo e que permeia a formação de diversos outros países da Europa como Itália, França, e Alemanha, que foram resultado na união de diferentes nações.


A Catalunha teve um passado conturbado, sendo marcada por guerras e mudanças de governo oriundas da junção de famílias de diferentes regiões por meio de casamentos. Já durante o século XI, o então Principado da Catalunha desenvolveu um complexo sistema institucional e político baseado no conceito de pacto entre os estamentos do reino e o rei, proibindo a criação de uma legislação unilateral e exigindo a necessidade da aprovação das leis nas Cortes Catalãs - tudo muito diferente das práticas comuns da época. Desde então, a Catalunha passou por várias altos e baixos, sendo porém a detentora de uma força econômica diferente de qualquer outro governo organizado de forma semelhante, tornando-se inclusive a grande força industrial da Espanha durante o século XIX, ao introduzir de forma pioneira a industrialização a vapor.


Localização da Catalunha. Fonte: Jornal Nexo

Embora nunca tenha sido um país independente, pelo menos na opinião da maioria dos pesquisadores, a Catalunha sempre foi organizada de forma muito independente. Por meio de um sistema de autogoverno, nomeado de “Generalitat de Catalunya” (Generalidade da Catalunha), funcionando desde o século XIV até hoje e que contempla o Parlamento da Catalunha, o Conselho Executivo e o Presidente do governo, o local mantém segurança, saúde, educação, cultura e outros assuntos sob sua gestão de forma exclusiva. Tal complexidade no aparato político da comunidade autônoma que ali existe acaba por dar mais força à reivindicação por independência.

A questão da independência catalã não começou agora, o país conta, inclusive, com uma corrente política inteiramente voltada à defesa do independentismo catalão. Já foram realizados três referendos populares acerca de sua independência, em 2009, 2014 e 2017, sendo que em todos os casos a maioria dos votos defendia a formação de um Estado independente. Outras manifestações, como em 2012, 2013 e 2015, aconteceram por toda a Espanha e reuniram milhares de pessoas que reivindicavam o separatismo catalão.


Protesto contra a violência utilizada durante o referendo. Fonte: Santi Donaire (EFE)

A Catalunha é uma região que detém e preserva sua própria cultura e língua, fazendo grandes investimentos para traduzir documentos de diversas áreas de pesquisa para a língua catalã, mantendo-a viva e ainda funcional dentro e fora do local. A localidade é uma das mais importantes na Espanha em diversos aspectos, principalmente no econômico, sendo o destino turístico mais procurado dentro do país, uma vez que a área contempla a Província de Barcelona, principal polo turístico espanhol. Além disso, é a parte mais rica da Espanha, correspondendo a 19% do PIB nacional, um dos principais fatores para a intensa luta em mantê-la como parte do Reino da Espanha. Os cortes de orçamento durante a crise financeira de 2008 e o aumento de impostos serviram para amplificar o descontentamento da população e dar mais força ao movimento separatista.

Carles Puigdemont, presidente do governo regional da Catalunha, pediu para comparecer no Parlamento regional espanhol na próxima terça-feira (10) para “explicar a situação política atual”, logo após um referendo considerado ilegal, por tratar-se de uma decisão tomada somente pela Catalunha e e que não contava com o apoio da Espanha. Puigdemont já havia expressado o desejo de encontrar-se com o Parlamento no dia 9, entretanto, a reunião foi suspendida pelo Tribunal Constitucional espanhol, já que havia a chance de que o presidente da Generalitat (Puigdemont) utilizasse a oportunidade para declarar a independência do território.

Como resposta às ações da Catalunha, a Espanha já tem tomado medidas para “prejudicar” a região, caso esta consiga declarar independência. Sucedendo-se, a separação trará grandes consequências tanto para a Espanha quanto para a Catalunha, que não fará parte da União Européia imediatamente, tendo que passar pelo longo processo de admissão como qualquer outro país. Além disso, haverá um grande baque econômico para ambas as nações, resta saber se a independência valerá o preço.

CRÔNICA: Sobre humanos e plebeus

4 de outubro de 2017

     
     Por Marina Monari

Foto: Google Imagens/reprodução.

Dia desses no metrô, eu e minha irmã de vida conversávamos sobre todas as mudanças que observamos nos últimos três anos, o espaço que ficou desde que nos formamos e que agora nos permite falar "no tempo da escola".

Dentre as mudanças, nós.

Ela começou a fazer Letras em São Paulo, eu fui fazer Biologia no interior e em algum momento percebemos que tínhamos nos afastado e a comunicação já não era das melhores. Por indecisões da minha parte (perdoem-me, sou libriana) voltei para São Paulo e decidi aventurar-me no mundo do Jornalismo. Os caminhos para essa nova fase foram difíceis e ela estava lá. Como eu disse, é minha irmã de vida.

Além de todas as idas e vindas, foram tantos estilos de cabelos, meu deus!, longo para baixo da cintura, curto para cima do ombro, verde água, cor de salsicha, amarelo, ruivo e natural. E aí, conversando mais um pouco, nos deparamos com uma série de melhores amigos que já não fazem parte da nossa história presente; e para nós, fãs de raposas e pequenos príncipes, o entendimento talvez tenha demorado mais a chegar.

Já posso até imaginar o que está passando pela sua mente, caro leitor. "De que essa menina tá falando? De raposa, de cabelo, de amizade?", e eu te respondo: de tudo isso!, porque acredite se quiser, conseguimos nomear um personagem do nosso passado para cada corte e cor de cabelo.

E, depois dessa lista que fizemos, nos olhamos e percebemos que o único motivo para estarmos de buchos cheios depois de comer lámen, ali naquele vagão da linha verde, foi termos escolhido permanecer na vida uma da outra, fazendo esforços constantes para não nos perdemos nas encruzilhadas que enfrentamos.

Em todos os momentos de distância em que a imagem dela tornava-se miragem para mim e a minha para ela, nós nos esticamos ao máximo para que, mesmo em estradas diferentes daquela bifurcação, pudéssemos andar juntas. Independente da cor ou do comprimento dos meus cabelos, de quem eu sou agora ou era antes, nós ainda somos, porque decidimos ser todos os dias.

E não pense você que é uma escolha única, são escolhas múltiplas o tempo inteirinho. E, então, eu escolho quem está em Brasília, na Irlanda, em Botucatu, mas escolho também quem me vê cinco dias por semana e até mesmo aqueles que moram comigo. Não é fácil, principalmente quando você não é escolhido de volta. Mas sabe?, o problema com raposas e pequenos príncipes é que a escolha para eles estava feita desde o começo, mas nós, humanos e plebeus, precisamos escolher todos os dias e isso não quer dizer que você seja para mim menos único do que a raposa era para ele. 

A Eterna Luta por Reconhecimento

3 de outubro de 2017

Por Enzo Kfouri

Pouco patrocínio. Baixos salários. Quase nenhuma visibilidade e atletas guerreiras que dão de tudo pela tal camisa canarinho. Até aí, nenhuma novidade, infelizmente nada além da triste realidade de sempre. Porém, como se não bastassem os velhos problemas que assombram o futebol feminino, o futuro da modalidade se encontra mais uma vez ameaçado com decisões incoerentes de dirigentes da CBF, que a comandam como uma empresa, e não como uma confederação esportiva.

Na semana passada, uma onda de pedidos de demissão abalou o esporte no país. Grandes nomes como a meio-campista Fran, a lateral Rosana, a zagueira Andreia Rosa, a lateral e meia Maurine e a atacante Cristiane resolveram se desligar da seleção brasileira após a demissão da técnica Emily Lima.

A treinadora estava no comando desde outubro de 2016, após a demissão de Oswaldo Alvares, o Vadão, depois de ele não conseguir alcançar o pódio das Olimpíadas do Rio. Lima obteve, em 13 partidas disputadas, 56,4% de aproveitamento (sete vitórias, um empate e cinco derrotas), e vinha pleiteando mudanças e melhoras para o esporte.

Emily Lima (direita) ao lado da atacante Marta (esquerda). A técnica foi demitida com apenas 11 meses de trabalho. Fonte: Lucas Figueiredo/CBF

Segundo uma entrevista à Folha de S. Paulo, a técnica informou que Marco Aurélio Cunha, o coordenador de futebol feminino não foi favorável à sua contratação desde o início: “Não tenho o perfil que ele queria, sou uma pessoa correta e adoro trabalhar. Você ouvir de um coordenador de uma modalidade que não é bom trabalhar demais é para se desanimar. Foi o que ouvi”, conta Lima.

Após a divulgação da demissão da técnica, as jogadoras, que sempre tiveram uma boa relação com ela, resolveram se manifestar, resultando no desligamento de várias atletas do time principal. Em entrevista ao Sportv, a atacante Marta diz que a decisão foi muito precipitada: “A minha opinião é a mesma que eu tinha quando trocaram o Vadão, a gente precisa de tempo para trabalhar. Não dá para fazer acontecer os resultados de um dia para o outro no futebol feminino, mas a gente sabe como nossa cultura no Brasil é baseada em resultados.”

Já Formiga, jogadora aposentada da seleção, também em entrevista ao Sportv, diz que Emily estava progredindo e que não vê como sua saída pode melhorar o esporte: “(A treinadora) estava (sic) brigando pelo grupo, por coisas boas, querendo o melhor, para realmente obter resultados e (A CBF) chega neste momento, vai e corta (a Emily). O que realmente (a CBF) quer? Quer a evolução ou não? Eu acho que não”.

Ao ver da lateral Rosana, em entrevista ao Estado de São Paulo, há um sentimento de impotência por parte das jogadoras: “Sinto que as atletas não têm voz, e querer expor um ponto de vista mexe com a vaidade e o ego de muitos”.

Em nota, a CBF disse que “A Confederação Brasileira de Futebol entende que a decisão de algumas jogadoras em não atuar mais pela seleção brasileira feminina é uma questão de ordem pessoal e que deve ser respeitada”. No fim, a entidade agradeceu a todas pelos serviços prestados à equipe nacional. 

A atacante e medalhista olímpica Cristiane se aposenta da seleção após demissão da treinadora. Fonte: André Mourão/O Dia/ NOPP

Entretanto, o mais interessante é o fato de Vadão, técnico anterior à Emily, ter sido chamado para reassumir o cargo. Mais uma vez, a exemplo da recontratação de Dunga ao comando da seleção masculina após a trágica eliminação na Copa do Mundo de 2014, a CBF mostra não estar comprometida com a real melhora do futebol no país e estar presa a dirigentes que não analisam o que é melhor ao esporte, mas o que é melhor para o mercado.

Contudo, aos que acreditam se tratar de machismo, vale lembrar que o mesmo tratamento foi dado ao técnico Renê Simões, que comandou o time por seis meses e atuou na olimpíada de Atenas 2004, na qual o time se sagrou vice-campeão. Na época, Simões estava lutando por mudanças no modo de praticar futebol e exigia comprometimento de todos a sua volta, o que muitos dizem que perturbou a confederação esportiva. Apesar de ser a primeira treinadora mulher a comandar uma seleção principal de futebol, Emily não acredita ter sido vítima de preconceito: “Eu incomodava muita gente lá em virtude da minha preocupação. Eu ligava para alguns setores dentro da CBF e às vezes não atendia, mas não houve machismo”.

Técnico Renê Simões após conquista da prata em Atenas 2004. Técnico teve o mesmo destino de Lima. Fonte: Reuters

Assim, o que se pode de fato questionar não é a demissão como forma de discriminação de gênero, mas como uma divergência de interesses em relação a uma entidade que deveria ser pró esporte, mas que tornou a administração de uma prática desportiva um meio de ganhar dinheiro e que, como vemos na maioria das instituições esportivas do país, está afundada em escândalos de corrupção e instabilidade financeira. 

Não se pode inocentar o povo brasileiro da culpa, todavia. Um dos fatores para o futebol feminino não se desenvolver, assim como vários outros esportes no país, é a falta de interesse dos espectadores. No Brasil, o segmento masculino da modalidade é muito forte e desde cedo somos doutrinados pela família a torcer por algum time. Corinthians, Palmeiras ou São Paulo? O problema é que o brasileiro se esquece dos outros esportes e não apoia outras atividades. É triste que, mesmo com a passagem de uma olimpíada pelo país, a audiência e a visibilidade continuem concentradas em apenas um gênero de uma modalidade. Apesar de mais uma crise, a modalidade feminina vai resistir; porém, novamente, quem paga pela má gestão de instituições nacionais são as atletas que tanto se esforçam. Mas você, caro leitor, também é o culpado.

Outubro Rosa e a luta contra o câncer de mama

Por Thays Reis


Divulgação do evento Pedalada Rosa do Instituto Quimioterapia e Beleza 

Outubro já começou e a dedicação às campanhas na luta contra o câncer pelo diagnóstico precoce também. Pensando nisso, várias instituições realizam eventos esse mês para divulgação da causa.

As campanhas começaram com um evento na Casa das Rosas no domingo (1), com a participação do Coral Pérola Rosa. Teve distribuição de brindes, iluminação na cor da campanha e dispersão de balões e a participação das mulheres pacientes de câncer de mama.

Já nesse sábado (7), o Instituto Quimioterapia e Beleza realiza a 3ª Pedalada Rosa. O evento acontece ao ar livre e os participantes sairão de bicicleta da Praça dos Arcos até a Praça Oswaldo Cruz e retornando ao ponto de partida. Para participar do evento, basta adquirir o kit composto de sacochila, uma squeeze e uma camiseta pelo valor de R$45,00. Esse valor corresponde a um lenço doado a mulheres em tratamento, realizado pelo Banco de Lenços Flávia Flores, unidade de ação do instituto. Além disso, a própria Flávia Flores, sobrevivente da luta contra a doença e  idealizadora do projeto, estará presente, além de realizarem outras atividades, como a tenda de beleza, oficina de reparo em bicicletas e muito mais. E se você não tiver bicicleta, não se preocupe, no local haverá a possibilidade de alugar uma.

Durante todo mês serão realizados 900 exames de mamografia em vários pontos da cidade, bem como a distribuição de cartilha com orientações de saúde. O Senac também realizará, nas unidades de Campinas e Tiradentes, algumas palestras sobre a qualidade de vida na prevenção, a importância do diagnóstico precoce e apoio psicológico.

Enquanto tudo isso acontece, o Departamento de Iluminação Pública (ILUME) vai iluminar com a cor da campanha locais como o Edifício Matarazzo (prefeitura de São Paulo), o Viaduto do Chá, as pontes Estaiada e das Bandeiras, além do Monumento às Bandeiras e a Biblioteca Mário de Andrade. Também serão iluminados os hospitais Carmen Prudente, Servidor Municipal, Alípio Correa Neto, Fernando Mauro Pires da Rocha, Carmino Caricchio, Arthur Ribeiro de Saboya e Menino Jesus.


A HISTÓRIA DO OUTUBRO ROSA

O movimento internacionalmente conhecido como Outubro Rosa se iniciou no final do século 20, nos Estados Unidos, quando vários estados faziam ações isoladas de campanha para mamografia e prevenção do câncer de mama. Posteriormente, resolveram unir forças e, com aprovação do Congresso Americano, outubro se tornou o mês nacional de prevenção do câncer de mama.

A história da cor rosa se refere ao laço de mesma cor que foi distribuído pela primeira vez pela Fundação Susan G. Komen for the Cure (Susan G Komen pela cura) em um evento chamado Corrida pela Cura em 1990 e realizado anualmente desde então.

Em 1997 entidades das cidades de Yuba e Lodi nos Estados Unidos começaram a realizar ações e comemorações pela prevenção através do diagnóstico precoce e efetivamente denominaram como outubro rosa. Inicialmente, para sensibilizar a população, enfeitavam a cidade com laços rosas, principalmente em locais públicos. Depois surgiram outras comemorações, como desfile de moda com sobreviventes da doença e partidas de boliche.

A iluminação dos monumentos com a cor rosa surgiu mais tarde, não se sabe exatamente quando, mas foi extremamente importante para dar mais visibilidade para a causa e pela fácil adequação através do mundo, já que é apenas adaptar a iluminação já existente dos locais.


O CÂNCER DE MAMA


O câncer de mama é a multiplicação de células anormais da mama que formam o tumor. Há um tipo não-invasivo, que seria o caso do Ductal carcinoma in situ (DCIS), que se forma nos dutos de leite, mas não se espalham. Mas há também o invasivo, chamado de metastático, que ocorre quando ele se espalha para o tecido próximo ou para outras partes do corpo. Assim, se um câncer de mama se dissemina para o pulmão formando um tumor metastático, será um câncer de mama metastático, não de pulmão.

Os sintomas não são os mesmos para todas as mulheres e às vezes não apresentam nenhum sintoma, mas os mais comuns são as mudanças de aparência e textura dos seios e mamilos. Irritação, vermelhidão, inchaço, dor e secreção sanguinolenta ou serosa pelo mamilo são também alguns dos sintomas que podem ser sinais de nódulos, bem como a percepção de massa ou nódulo em si.

Segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva), o câncer de mama é o que mais acomete as mulheres com 28,1%, seguido de longe pelo de intestino com 8,6%. Por isso a importância do outubro rosa, para que as mulheres possam fazer o exame e diagnosticar a doença precocemente.

Águeda Nunes mostra sua resiliência depois da mastectomia

Foi o caso de Águeda Nunes, que sempre esteve atenta aos exames preventivos, mas detectou o câncer pelo toque em abril de 2013, um pouco depois da sua última mamografia. "Fiquei um pouco perdida, mas tenho uma família muito participativa e unida e essa sensação de desespero passou logo. Esse apoio foi muito importante" Águeda criou o grupo no Facebook "Câncer de mama um desafio" porque sentiu a necessidade de encontrar outras mulheres como ela para trocar informações e apoio, e acabou ajudando outras mulheres, já que muitas são abandonadas pelos parceiros e família nessa fase delicada. "Aquilo me preencheu. Eu sinto que essa união gera forças para muitas ao enfrentar a doença e principalmente o medo."

Águeda começou os tratamentos, fez quimioterapia, radioterapia e a mastectomia (remoção total dos seios, os dois no caso de Águeda) e hoje toma inibidores hormonais há 2 anos com previsão de mais 8 anos. Posteriormente fez a reconstrução das mamas e hoje está bem, apenas fazendo os exames de controle. Águeda foi e é uma verdadeira lutadora.


O CÂNCER DE MAMA EM HOMENS

O câncer de mama é raro em homens, ocorre em apenas 1% do total dos casos da doença. Pela pouca frequência que ocorre, muitos homens acabam ignorando os sintomas, o que resultou em 181 casos de mortes no Brasil em 2013, segundo o INCA. Os possíveis sinais são protuberância ou inchaço indolor, pele ondulada ou enrugada, retração do mamilo, vermelhidão ou descamação da pele da mama ou do mamilo e inchaço nos linfonodos das axilas.

Contudo, essas alterações nem sempre são causadas pelo câncer, porque a maioria dos casos de nódulos de mama no sexo masculino ocorre pela ginecomastia, que é o crescimento anormal de mamas nos homens. Portanto, é importante procurar um médico assim que houver a identificação de um possível nódulo.


EXAMES

       O diagnóstico do câncer de mama só pode ser feito mediante uma biópsia da área suspeita que seja analisada por um patologista e identificada como sendo um câncer. Mas a biópsia só é feita em caso de suspeita no exame físico de toque, no ultrassom das mamas ou na mamografia, que deve ser realizada entre 35 e 40 anos a primeira vez e anualmente após os 50 anos. Assim, é necessário fazer o exame de toque frequentemente porque é uma das maneiras mais rápidas e eficazes de identificar o possível câncer.

Folder ensinando a fazer auto-exame para descobrir o câncer de mama Fonte: Femama

Assim que se observa uma suspeita na mamografia, é realizado o rastreamento do nódulo com base no resultado e o ultrassom das mamas serve como complemento, pois ajuda a identificar a diferença entre cistos e nódulos.

Já a ressonância magnética é recomendada para o rastreamento apenas em populações de alto risco, como pacientes com uma história familiar confirmada ou suspeita, pacientes sabidamente predispostas geneticamente ao câncer ou pacientes que já tiveram um primeiro quadro da doença. Nesses casos a recomendação é iniciar o rastreamento aos 30 anos de idade.


Fontes consultadas:

Ginecomastia
INCA
Outubro Rosa
Neomama
Oncoguia
Fundação Susan G. Komen for the Cure

A morte dos rios paulistanos

2 de outubro de 2017

Por Guilherme Queiroz


Rio Pinheiros antes e depois da retificação. Reprodução: Foto 1. Foto 2

São Paulo de Piratininga. Esse foi o primeiro nome da vila que se tornaria a cidade mais populosa da América. Em 1554, padres construíram um colégio jesuíta no alto de uma colina entre  dois rios. E assim começou a história de São Paulo, e também, o início do fim dos rios paulistanos.
     
Os dois rios que passavam, e ainda passam no local que hoje é conhecido como Pateo do Collegio, seriam os rios Anhangabaú e Tamanduateí. No início do desenvolvimento da vila, os rios era fundamentais. Ambos dão conexão ao Tietê, que dá acesso a uma grande parcela do interior do estado de São Paulo.

Representação de como seria o Rio Tamanduateí com o colégio jesuíta ao fundo. Artista: Paulo de Carvalho

A cidade começou a se desenvolver ao redor da construção jesuíta. Comércios, casas, e até mesmo um importante porto eram localizados na região.

Até o momento, os rios tornavam-se parte viva e essencial para a vila que começava a virar cidade. A expansão definitiva de São Paulo foi com a expansão cafeeira para o interior do estado. Vários investimentos começaram a ser feitos na região, como a ferrovia controlada pelos ingleses, a São Paulo Railway, que ligava o interior do estado ao Porto de Santos, construída na segunda metade do século XIX. O trajeto da ferrovia quando chega em São Paulo foi feito utilizando-se da área da planície do rio Tamanduateí.

Anúncio em jornal da construção da São Paulo Railway Company. Fonte

Com a construção da ferrovia, o uso do transporte hidroviário caiu em desuso. A cidade crescia mais e mais, e os rios, que antes eram artérias de São Paulo, tornaram-se obstáculos. Um dos símbolos ostentados pela elite paulistana durante o início da modernização da cidade, era o Viaduto do Chá. O Viaduto que hoje passa pelo Vale do Anhangabaú foi construído para ligar partes da cidade que eram divididas pelo rio Anhangabaú. A construção, até 1887, só podia ser utilizada perante o pagamento de um pedágio. Com estruturas importadas da Alemanha, a estrutura conectou o centro da cidade aos novos bairros, que começavam a serem loteados. Os bairros, no início foram feitos para serem ocupados pelas elites, pelo alto preço dos loteamentos, surgia então o Higienópolis e os Campos Elíseos.

Os terrenos de alto padrão exigiram outro tipo de investimento, o fornecimento de água encanada e esgoto. Em 1878, os mesmos que investiram nos novos bairros, formam a Companhia de Águas e Esgoto Cantareira. A modernidade e a poluição vão de mão dadas. O esgoto era todo despejado nos rios e córregos da cidade. E claro, o resultado foi uma crise sanitária. As várzeas do Tietê e do Pinheiros, principalmente, tornam-se extremamente poluídas e várias epidemias começam a eclodir.

A questão sanitarista, somada ao empecilho que os rios representavam para a expansão da cidade, que já havia extrapolado a região central e começava a crescer em direção as áreas do Tietê e do Pinheiros, levou ao início da canalização dos rios paulistas. O Vale do Anhangabaú passa a só ter "vale" no nome, é tomado de concreto e o rio que antes existia embaixo do Viaduto do Chá desaparece da vista e se torna subterrâneo. A Ladeira do Porto Geral passa a ser apenas uma ladeira, sem fornecer acesso a nenhum rio. O parque Dom Pedro II, antes com a vista do Tamanduateí, por ser localizado às suas margens, passa a ter visão de um canal, com a canalização do rio em 1912.

Vista da região do Porto Geral, autor  desconhecido, foto datada de 1862. Fonte

E é claro, que a canalização de diversos afluentes do Tietê não foi onde pararam. Os argumentos dos sanitaristas convenceram a população e o governo. Mas o mais inusitado de toda essa história é o modo como foi realizado a retificação do Tietê e do Pinheiros. A Companhia de Melhoramentos do Rio Tietê ficou responsável pela execução da obra e o início da transformação do gigante paulista em como nós o conhecemos atualmente, quando ele passa pela capital.

Foi dada a concessão do rio a empresa no início dos anos de 1920. Precisava-se então delimitar o que era o rio. Não é simplesmente o local por onde passam as águas, mas também a área de cheia. E na época, a população mais pobre que morava na várzea do rio era também a mais afetada pelo esgoto e as diversas doenças que foram causadas por todos os resíduos despejados nas águas do Tietê. Para o início das obras, precisava ser feita a desapropriação das terras, e muitos não queriam vender ou queriam vender por preços altos. A Companhia então encontrou a solução.

Em 1929, aconteceu a maior enchente da história da cidade de São Paulo. O que não se sabia até a publicação do trabalho de Odette Carvalho de Lima Seabra, intitulado "Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder" era que, na verdade, a enchente foi provocada. Na época, a antiga Light era responsável pela Represa Cantareira. Antes da enchente, houve uma enorme chuva, mas segundo a pesquisa da professora Odette, o volume de água não seria suficiente para causar a enchente. Odette descobriu então que, na verdade, a Light abriu as compotas da represa e houve a inundação.

Enchente em São Paulo em 1929, autor desconhecido. Fonte

O objetivo da Companhia de encontrar os limites do rio foi cumprido então, e ainda por cima, a empresa pôde comprar várias propriedades a preços baixíssimos.

A retificação do rio então, é iniciada. O Tietê e o Pinheiros são rios de planície, por isso serpenteavam ao longo do seu trajeto. Com a obra, os rios tornam-se um único canal. Começa então, a morte do rio. Ou melhor, dos rios.

Rio Pinheiros atualmente. Fonte

Rio Pinheiros antes da retificação. Fonte

Com a chegada do automóvel do Brasil, a elite paulistana passa a querer com que sua cidade vire a capital latina dos carros. Uma São Paulo lotada de avenidas largas, viadutos, essa era a prioridade do transporte. Nessa mesma época Francisco Prestes Maia, engenheiro, começa a bolar o seu plano de construção de uma cidade com Avenidas Radiais Concêntricas. Inspirado em cidades como Viena (Áustria), Paris (França) e Moscou (Rússia), Prestes Maia queria colocar as mesmas bases de transporte em São Paulo, porém, pulando etapas. As cidades anteriormente mencionadas, tem o plano de avenidas, mas junto com a construção das mesmas, construiu-se também um anel ferroviário e hidroviário. Porém, o engenheiro ignorou esses mecanismos e deu prioridade aos carros.

Plano de avenidas de Paris. Fonte

Plano de avenidas de São Paulo. Fonte

Os planos de Prestes Maia se concretizaram quando ele se tornou prefeito da cidade em 1938. Para construir o seu plano de avenidas, ele se usa dos fundos de vales dos rios e córregos, por serem áreas de pouco valor imobiliário, ou seja, mais fáceis de serem desapropriadas. Surgem então, as principais avenidas de São Paulo, como a Avenida do Estado, a Avenida Nove de Julho e a Avenida Vinte e Três de Maio. Consequentemente, o carro ganhou definitivamente o seu espaço.

Diversos rios e córregos, submergidos, correndo na escuridão, embaixo de nós, nas ruas. Se tornando então, sujos, repletos de esgoto. As medidas de Prestes Maia tornam-se modelo e diversos cursos de água são transformados em subterrâneos.

Contudo, o rio pode até ter sido escondido, mas ele ainda existe. E quando chove, ele busca o seu espaço. Por isso sofremos tanto com enchentes, a enchente paulistana foi inventada, é uma das centenas de consequências da modernidade promovida por Prestes Maia, e tantos outros, que quando se depararam com a natureza desafiando o progresso, tentaram sufocá-la, mas falharam.


Fontes: Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder, Odette Carvalho, Documentário Entre Rios.

Vamos falar sobre apropriação cultural

Por Roberta Domingues

"Nós somos uma cultura, e não uma fantasia. Este não é quem eu sou e isso não é legal" Foto: STARS

Apropriação cultural é "a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente", segundo o site Geledés. Isso pode incluir modos de se vestir e gestos, além de elementos típicos de uma cultura, como o uso de dreadlocks e o cocar indígena.

Esse tema é causa de sérios debates e brigas. No começo do ano tivemos a polêmica sobre a paciente com câncer usando um turbante, que gerou intensa discussão na internet. Mas apropriação cultural não é frescura. Muitas vezes feita sem querer, ela fere algumas pessoas enquanto glorifica outras.


Nas palavras de quem sofre

A twitter @cathythemango escreveu sobre o assunto, e sua postagem tem mais de 8 mil compartilhamentos. Ela diz: "Você quer saber o que é apropriação? Não é 'pegar emprestado' de outras culturas. Não sou eu comendo burritos, fazendo aulas de Krav Maga [uma luta típica israelense] ou acompanhando minha amiga quando ela foi fazer henna para o casamento dela. Não sou eu dizendo 안녕하세요 para o meu vizinho. Nenhuma dessas coisas é ruim! Deixe eu te dizer o que é 'apropriação'; é quando fui ridicularizada pela minha história na China comunista [a autora é chinesa] e meu colega branco foi aplaudido. É quando meus amigos negros são julgados pela sua atitude 'ghetto', mas vêem outras pessoas adotando a mesma atitude para parecerem legais. É quando meus amigos muçulmanos são zombados em um restaurante paquistão em que os donos são brancos. É quando as pessoas usam kimonos no festival das cerejeiras e depois tiram sarro dos japoneses pelo sotaque deles. É quando o tema do seu casamento é Cinco de Mayo e você não tem convidados hispânicos e só eles são os serventes. É quando uma cultura é pega fora do contexto pelo simples fato de ser esteticamente bonita e ao mesmo tempo diminui as pessoas que fazem parte daquela cultura. Você entende? Ninguém vai te impedir de comer yakissoba."


A questão dos dreadlocks

Dreadlocks não são somente um tipo de penteado. Existe uma complexa e bonita história por trás desse estilo. Ela data desde o tempo dos egípcios, e teve papel fundamental durante a colonização da África pelos europeus. Josie Pickens, do site Ebony, nos fornece uma visão mais do que suficiente. Os rastafáris utilizavam os dreads como forma de rebeldia contra os colonizadores, que esperavam deles uma atitude mais "britânica", simplesmente por deixar o cabelo crescer em seu estado natural. Era uma forma de revolução.

Os negros que saíram da África na época da escravidão e que popularizaram o estilo pelo mundo eram militantes e visavam acabar com a opressão dos brancos. "O privilégio de poder usar dreads sem precisar saber absolutamente nada sobre a história deles é o que irrita os negros", escreve Josie.


Brancos e negros utilizam dreadlocks; porém, são os negros que sofrem as consequências. Foto: Google imagens

Por que não podemos ser todos iguais e compartilharmos a mesma cultura?
Por mais que queiramos pensar em um mundo igualitário, deve-se levar em conta um simples fato: a realidade. No mundo real, não somos iguais, e estamos muito longe de sermos. O que isso quer dizer? Que o padrão de beleza regente no mundo atual é o europeu -- pele branca, olhos claros, cabelo fino e liso, porte magro -- e que tudo o que foge dele é considerado feio. A sociedade impõe esse padrão ao dizer que o cabelo em dreads é feio, que as mulheres negras que usam seus cabelos naturais são "descuidadas", e que as que alisam o cabelo são "ajeitadinhas". Nesse caso, a apropriação cultural se dá quando os modos de ser negro (linguajar, roupas, atitude, até mesmo o cabelo) são moda, mas os próprios negros são obrigados a cortarem seus dreads para conseguirem empregos.

E quando mulheres negras alisam o cabelo?
Tendo em vista que as mulheres negras já estão fora do padrão de beleza, alisar o cabelo é uma técnica de sobrevivência para adaptar-se à sociedade. "Quando um grupo marginalizado utiliza-se de elementos da cultura dominante, não é apropriação, e sim assimilação", escreve Maisha Z. Jhonson para o site Everyday Feminism. "Uma mulher branca usando dreads utiliza-se do seu privilégio para usar o penteado e ser aceita, talvez ainda recebendo um feedback positivo sobre seu cabelo. No entanto, uma mulher negra com dreads é tida como inferior pelo simples fato de seu cabelo não parecer como o de uma pessoa branca. Por isso é mais provável que ela alise".

Quando Kylie Jenner postou uma foto sua no Instagram usando tranças na raiz do cabelo, a atriz Amandla Steinberg (conhecida pelo seu papel como Rue no filme Jogos Vorazes) pronunciou-se:

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Em seu instagram, Kylie aparece usando tranças de raiz, um penteado culturalmente africano. Foto: @kyliejenner no Instagram

"Kylie está usando sua fama para dar atenção ao seu cabelo, que imita a cultura negra, mas não para a violência racista que os negros sofrem."


A mesma coisa é válida para o uso de turbantes. Enquanto mulheres brancas usam o turbante como acessório de moda, esquecem que ele possui significado religioso para certas culturas e que outras pessoas são ridicularizadas ou agredidas verbalmente pelo uso do mesmo. Dhipinder Walia, uma mulher indiana, publicou no site Thought Catalog sobre como sofre com essa disparidade de opiniões. "Quando você decide usar um turbante porque é 'bonito' ou 'legal', você não reconhece todas as pessoas que foram excluídas de viagens de família, empregos, uma caminhada na rua, ou um jantar agradável porque estão usando sua religião em suas cabeças. Você não lembra de todos os olhares que deu para aquele homem velho de barba e turbante no metrô".


O Halloween está chegando


Do mesmo jeito que o uso de dreadlocks e turbantes pode parecer inofensivo, usar uma fantasia que remete a uma cultura que você desvaloriza ou ridiculariza é extremamente ofensivo para alguns. Por isso, tenha isso em mente quando for se preparar para a festa à fantasia. Vestir-se de índio e usar o cocar com penas é tirar todo o simbolismo religioso presente na roupa e usá-lo como diversão. Vestir-se de mexicano é tirar sarro de uma cultura historicamente oprimida. Divirta-se, mas não às custas da cultura dos outros.



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"Você usa a fantasia por uma noite. Eu carrego o estigma para o resto da vida" Foto: STARS

Quer saber mais? Confira o vídeo de Nátaly Neri falando sobre o assunto.








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