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Os ataques com ácido e a violência de gênero

23 de setembro de 2017

Por Carolina Avólio

       “Meu nome é Farida, tenho 40 anos e vivo em Bangladesh. Meu marido era viciado em drogas e em jogos. Ele perdeu tanto dinheiro que foi forçado a vender nossa casa. Eu estava furiosa e falei que iria deixá-lo. Então naquela noite, enquanto eu dormia, ele jogou ácido em mim e trancou a porta. Meu corpo todo começou a queimar e eu estava gritando tão alto que os vizinhos vieram correndo”. 
       Infelizmente, a história de Farida não é um acontecimento único. Os ataques com ácido contra mulheres têm aumentado em uma proporção impressionante, ainda mais no Oriente Médio – Índia, Bangladesh, Paquistão, Irã, Camboja, Nepal e Afeganistão registram alguns dos índices mais altos do mundo. Longe de ser um problema regional, esse tipo de violência também vem crescendo na Uganda, no Reino Unido (único local onde a maioria das vítimas são homens), na Itália e na Colômbia, país no qual a questão já é tratada como um problema de saúde pública. Segundo estimativas da ASTI (Acid Survivors Trust International), organização que ajuda pessoas que sofrem desse tipo de violência, são 1.500 vítimas todos os anos, sendo que 80% delas são mulheres, e a maior parte tem menos de 25 anos.

Munira Asef, paquistanesa, 23 anos, foi queimada com ácido após recusar um pedido de casamento. Passou por sete cirurgias até agora. (Foto: Emilio Morenatti)

A misoginia por trás da violência 

       A maioria das vítimas desses ataques teve sua vida transformada para sempre por rejeitar pedidos de casamento, levantar suspeitas de adultério, causar ciúmes entre as esposas de um mesmo marido, questionar a autoridade patriarcal, reagir a insinuações sexuais, pedir divórcio etc. A alteração do papel das mulheres na sociedade oriental – outrora tidas como objeto doméstico e descartável, agora crescendo no mundo acadêmico e no mercado de trabalho – também faz com que os homens se sintam "desafiados". 
      Como se não bastasse o trauma ao qual foram submetidas por terem seus rostos desfigurados, muitas não relatam o ocorrido por medo de perseguição e reincidência. Foi o que aconteceu com uma mulher indiana, cuja identidade foi mantida sob sigilo, depois de sofrer um estupro coletivo. Logo após a violência sexual, os mesmos agressores a atacaram com ácido sulfúrico. Depois de a vítima prestar queixas, ela foi atacada mais duas vezes pelas mesmas pessoas e na terceira vez foi forçada a beber ácido enquanto fazia uma viagem de trem com a sua filha. Ambos os homens foram soltos mediante o pagamento de fiança. 


As falhas do Estado

       A impunidade é apenas um dos problemas adjacentes dos trágicos ataques. Um dos motivos pelo crime ser tão comum é justamente a facilidade com que a substância pode ser adquirida, ainda mais em zonas de indústrias de joias, borracha e algodão – as garrafas de ácido são vendidas na Índia por apenas US$0,33 e sem receita. Uma das vantagens de escolher o ácido como arma do crime é que as leis são muito mais brandas em relação a esse tipo de ataque do que em relação ao esfaqueamento, por exemplo. Bangladesh, o primeiro país a adotar leis para limitar o acesso aos produtos e punições mais severas, incluindo a pena de morte, obteve uma redução de quase 75% no número de casos entre 2002 e 2012. 


Discriminação 

       Quando o ácido entra em contato com a pele, é uma questão de segundos até que a epiderme, os ossos e até mesmos os órgãos internos sejam afetados. Pode causar cegueira e desfiguração para o resto da vida, não importa o número de intervenções cirúrgicas. Porém, as cicatrizes psicológicas são as que mais afetam as vítimas. Shirin Juwaley, vítima de ataque de ácido cometido pelo marido após pedir o divórcio, relatou que “é muito menos tangível, mas a discriminação de amigos, familiares e vizinhos dói mais”. Muitas vítimas são frequentemente humilhadas em público e recorrem à exclusão social como forma de proteção. Afastadas do convívio em sociedade e do mercado de trabalho, ficam totalmente marginalizadas. “Minha vida deu um giro de 180 graus. De profissional de sucesso, me converti em uma rejeitada social sem recursos próprios nem família”, conta Vinitar Parniker, de 26 anos, vítima também do próprio marido. 
       As ONGs desempenham um papel fundamental no auxílio à reintegração, criando centros de trabalho e fornecendo atendimento psicológico. Não são raras as mulheres que cometem suicídio após serem notificadas que seus agressores foram livrados das acusações e continuam livres. 


Dando a volta por cima 

       Monica Singh, que sofreu um ataque depois de recusar um pedido de casamento feito por um amigo, criou uma fundação que apoia vítimas dessa violência. Em parceria com uma ONG colombiana, elaborou uma HQ que transforma mulheres que tiveram seus rostos desfigurados devido ao ataque com ácido em heroínas. A primeira edição narra a história de Priya, uma garota que sobrevive a um estupro, é culpada pela violência e acaba sendo expulsa de casa por ter "envergonhado seus pais". Obrigada a vagar sozinha, ela ganha um tigre e superpoderes e passa a combater os estupradores da Índia. Já o segundo volume conta a história de Anjali, que luta contra um rei demônio e cuspidor de ácido chamado Ahankar. (Clique aqui para ler a HQ completa e em português) 
       Já Reshma Bano, indiana e sobrevivente do mesmo tipo de ataque, viu sua vida mudar quando foi chamada para desfilar na Semana de Moda de Nova York. Ao som de aplausos e gritos de “linda” e “vitoriosa”, ela cruzou a passarela emocionada e com um sorriso no rosto. Bano espera que a sua estreia no mundo da moda possa levantar atenção à causa. "Eu quero que as pessoas olhem para as sobreviventes de ataques de ácido como pessoas normais. É absolutamente traumático ser uma garota com o rosto arruinado. Na Índia é tão fácil comprar um ácido quanto comprar um batom. Este é o crime mais fácil de cometer... Não é como levar um tiro ou ser esfaqueada. Não há sangue, mas há trauma que se leva para o resto da vida”, contou aos jornalistas um pouco antes de correr a Times Square, entusiasmada em sua primeira viagem internacional.

Reshma Bano desfilando na Semana de Moda de Nova York em 5 de setembro. (Foto: AFP)

Para conhecer o trabalho da ASTI, associação que dá suporte a vítimas desse tipo de violência, clique aqui.

Intolerância religiosa: o que está acontecendo com as religiões de matriz afro no Rio de Janeiro

22 de setembro de 2017

Por Marina Monari


Foto: Google imagens/reprodução. Templo dos Orixás Antônio Baiano



Acontecimentos recentes


       A primeira quinzena de setembro de 2017 foi marcada por uma série de atrocidades na cidade do Rio de Janeiro, foram oito queixas recebidas pela Secretaria de Direitos Humanos que alegam violações de terreiros de Candomblé. Dessas oito, sete já foram confirmadas. Entretanto, sabe-se que esse número é muito menor do que a realidade.
       O motivo principal para a repercussão desses acontecimentos foi o ocorrido na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu: sete homens armados entraram em um terreiro, obrigaram a mãe de santo a destruir todas as imagens ali presentes e arrebentaram todas as guias  dos filhos de santo (colares que os fiéis usam, que representam sua devoção e proteção). Um vídeo da destruição das imagens foi postado pelos criminosos em redes sociais. 
       Após o ocorrido, a mãe de santo recorreu à Secretaria de Direitos Humanos para que tivesse apoio da polícia para voltar ao terreiro e recuperar seus pertences. Por medida de segurança, sua identidade e a data da recuperação estão sendo mantidas em segredo. 
       Testemunhas do crime, em entrevista para a CBN, confirmaram todas as alegações e ainda afirmaram que os bandidos urinaram nos artefatos quebrados, dizendo que não permitiriam aquele tipo de "bruxaria" na comunidade. Na filmagem é possível ouvir:     
       "Quebra tudo, quebra tudo! Apaga as velas, porque o sangue de Jesus tem poder! Arrebenta as guias todas! Todo o mal tem que ser desfeito, em nome de Jesus! Quebra tudo porque a senhora é quem é o 'demônio-chefe'! É a senhora quem patrocina essa cachorrada! Quebra tudo! Arrebenta as guias todas, derrama, quero que quebre as guias todas!"

Still do vídeo em que a mãe de santo é obrigada a destruir seu terreiro.

       Em outro ataque registrado pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa no mesmo bairro e neste mesmo período, um pai de santo também foi obrigado a destruir seu próprio terreiro. Enquanto ele o fazia, era ameaçado de morte por bandidos que carregavam um taco de beisebol com a palavra "diálogo" escrita nele e diziam para que não voltasse a abrir um terreiro na favela. Eles gritam as ameaças, nomeando uma facção criminosa da região e usando termos religiosos comumente ouvidos em cultos evangélicos.
       "É só um diálogo que eu tô tendo com vocês, na próxima vez eu mato! Safadeza, pilantragem! Primeiramente é Jesus! Quando vocês forem bater cabeça aí na casinha do cachorro, vocês primeiro pedem licença a Jesus! Vocês não sabem que o 'mano' não quer macumba aqui? Tá peitando por quê? Por que a gente tirou a boca dali? Arrebenta tudo! Eu sou da honra e glória de Jesus!"
       Para o presidente da Comissão, Ivanir dos Santos, as ações não são isoladas e representam uma tentativa de aumento no domínio que certos grupos exercem nas comunidades, por meio de líderes religiosos mal intencionados. 
       "Essa é uma coisa muito bem orquestrada e pensada até de ocupação de espaço geográfico. É sinal de que tem algumas más lideranças religiosas metidas nisso. Porque o cidadão em si ele não acorda, da noite pro dia, tem uma miragem, 'ah, Jesus mandou, fui lá e fiz'. Não é isso que está acontecendo. Eles estão falando com uma retórica, com um discurso muito bem construído. Então alguém botou isso na cabeça dessas pessoas.", disse Ivanir. 
       No mesmo período de setembro, foram anunciados pela CBN dados do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que revelam que desde 2012 nenhuma condenação foi feita por crimes de intolerância religiosa.

História


       Um levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas revelou que mesmo sendo o segundo estado menos religioso do país, o Rio de Janeiro representa a maior proporção de fiéis de religiões afro-brasileiras de toda a nação, sendo esse número 1,61% em contraponto ao Brasil que possui uma relação de 0,35% apenas. 
     O caso recente mais famoso foi um atentado à vida da menina Kailane Campos, de 11 anos, no ano de 2015. Enquanto saía de um culto, vestida de branco, com a avó, ela foi apedrejada por pessoas que gritavam "Vai para o inferno!", "Diabo!", "Jesus está voltando!", enquanto seguravam suas Bíblias. O estado do Rio é o quinto com maior representatividade de religiões evangélicas tradicionais.
     
       No entanto, é de se saber que essas violências não são recentes, já que o Candomblé e a Umbanda são religiões de origem africana e, num país racista como o nosso, não é de se espantar que essas coisas aconteçam. Na época da colonização, os escravos se viram obrigados a esconder seus cultos e sua religião totalmente, até que iniciou-se um processo de sincretismo religioso, que hoje representa a correspondência de santos dessas religiões com a católica, que era a religião oficial dos portugueses e imposta a todos os índios e escravos.

Foto: Google imagens/reprodução. Sincretismo religioso.

       Apesar disso, as raízes africanas nunca se perderam, como nos costumes gastronômicos, musicais e de vestimenta. E, por isso, para os intolerantes, é muito fácil avistar seus alvos, como a menina Kailane, que estava vestida com roupas tradicionais da religião e foi atacada. 
       Em vista de todos os acontecimentos desde a escravidão, foi necessário que se redigisse uma lei para garantir a segurança dessas pessoas. Em 1946, o escritor baiano Jorge Amado (autor de "Capitães da Areia") foi o criador da Lei de liberdade de culto escrita na carta magna do mesmo ano, que foi anexada ao Art 5º da constituição da republica de 1988.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

        Mais uma vez, atentados às vidas de milhares de pessoas negras, ou que seguem religiões de descendência africana, são feitos regularmente e a lei sozinha é incapaz de assegurar a proteção dessas pessoas em detrimento de uma invencibilidade daqueles que pregam a violência em nome das religiões de origem europeia. 
       É o Brasil negando suas raízes africanas.


       Os vídeos podem ser assistidos no portal da Rádio CBN



Fontes: El País e Rádio CBN

A depressão caminha pelos corredores da universidade

21 de setembro de 2017

Por Amanda Leite

Cartaz de apoio aos estudantes. Fonte: Frente Universitária de Saúde Mental
       A saúde mental está em crise. Transtornos psicológicos gravíssimos, como a depressão, hoje afetam diversos estudantes de todo o Brasil, como Olga Skaf, aluna de Medicina, que, em entrevista ao Estadão, relata o susto e as dificuldades de lidar com a doença.
       “No terceiro ano do curso, eu deixei de ter prazer em ir às aulas, em fazer esporte, não conseguia sair da cama, comecei a perder os dias de prova. Sentia que minha vida era insignificante”, contou ao veículo. Infelizmente, Skaf não é a única: nos últimos cinco anos, só na UFSCAR, foram 22 tentativas de suicídio e na Unifesp, cinco estudantes tiraram a própria vida. Na UFABC, 11% de alunos trancaram a matrícula no último ano em decorrência de transtornos psicológicos.
       De acordo com um estudo liderado pela Unicamp, que avaliou o perfil de 1.237 estudantes, a busca por um tratamento pode evitar que o aluno abandone o curso. “Já sabíamos que transtornos mentais têm impacto negativo no desempenho acadêmico. Mas agora identificamos que, embora o aluno que busca ajuda demore mais para concluir o curso, as chances de evasão são menores até mesmo em relação à população em geral”, explicou a coordenadora do serviço e co-orientadora do estudo, Tania Maron.
       A psicóloga Marina Pereira explica, para o JornalSOL, que esse boom é causado pela frustação dos jovens de não corresponder as expectativas dos pais e as obrigações sociais: “Na realidade, muitos continuam a acreditar que, um dia, a vida vai mudar, caso acertem na chave dos milhões”.  A geração Y, conhecida como millennials é considerada a geração mais ansiosa e depressiva da história.

Fonte: Frente Universitária de Saúde Mental
       Contra esse problema iminente, várias universidades brasileiras iniciaram programas de apoio psicológico: na Unesp, em Botucatu, o curso de Medicina agora indica um professor mentor para quem teve mudança repentina no rendimento acadêmico e recomenda a participação de grupos estudantis nas redes sociais. Já na UFMG, após o suicídio de dois alunos, a reitoria criou, em 2017, dois núcleos de saúde mental. “Se um fato já aconteceu, é sinal de que falhamos no processo”, diz a vice-reitora Sandra Almeida ao Estadão. A UFBA criou, também nesse ano, um programa que foca, principalmente, nos alunos de baixa renda:  “Os cotistas sofreram rejeição, até mesmo de alguns professores”, diz o psicanalista e assessor Marcelo Veras.
       Também surgiram iniciativas dos próprios alunos, como a Frente Universitária de Saúde Mental, criada em abril e que engloba estudantes das redes públicas e privadas de São Paulo. Em junho deste ano, eles organizaram uma semana de palestras que abordaram a questão e sua página no Facebook já conta com mais de 27 mil curtidas.
"Eu vejo meus colegas surtando, e a gente fala pouco sobre isso. A criação da Frente nos mostra que não estamos sozinhos”, comenta Anna Campos Teotonio, aluna de Medicina da Santa Casa.
 
Fonte: Frente Universitária de Saúde Mental

            Embora seja um caminho árduo, a busca por ajuda é a melhor opção para estudantes com quadro de depressão. O descontrole de uma doença psicológica, que prejudica a vida profissional e social, podendo levar até ao suicídio, é considerado um dos maiores males do século. O mês de setembro relembra a luta daqueles que convivem com o transtorno e incentiva a busca pela solução com a campanha Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio.
       Hoje, a aluna Olga Skarf passa por uma fase menos conturbada: “Procurei psiquiatras, passei um tempo viajando, comecei terapia, adotei um cachorro, voltei a fazer trabalho voluntário. Neste ano, retornei para a faculdade sem nunca esquecer que eu tenho de estar sempre alerta. Tristezas, frustrações e pensamentos ruins vão aparecer, mas hoje percebo que não tenho que me esconder ou me mutilar. Aprendi formas de lidar e procurar ajuda.”


Fibromialgia, a doença que tirou Lady Gaga do Rock in Rio


       Por Marjorie Wartanian 


Na quinta-feira (14) a cantora cancelou seus shows no maior festival do Brasil


Foto postada pela cantora em seu Instagram (@ladygaga)

Lady Gaga é um ícone da música, uma figura autêntica e quase inabalável.  Seu jeito original e suas músicas e performances peculiares fizeram a cantora deixar uma marca de mulher forte – Gaga é, como dizem, um “mulherão da porra”. Contudo essa muralha da música foi abalada por uma doença pouco conhecida e recorrente em mulheres.
O show de Lady Gaga estava programado para o primeiro dia do festival (sexta-feira, dia 15), ela fecharia o primeiro dia de apresentações no palco Mundo, o principal do Rock In Rio. Com o cancelamento ela foi substituída pela banda Maroon 5 - primeira banda confirmada para o Rock in Rio 2017 – que já teria shows no sábado e acabou se apresentando em dois dias seguidos.
A cantora postou uma foto em seu Instagram (@ladygaga) com a legenda: "Brasil, estou devastada porque não estou bem o suficiente para ir ao Rock in Rio. Eu faria qualquer coisa por vocês, mas eu tenho que cuidar do meu corpo agora. Peço pela bondade e compreensão de vocês, e prometo que vou voltar e cantar para vocês em breve. Me desculpem e eu amo muito vocês". Vários fãs esperavam a cantora na frente do hotel Fasano, em Ipanema, quando receberam a notícia e o local se tornou palco para a tristeza deles, que estavam lá apenas para ver Gaga. Mesmo decepcionados os fãs brasileiros (que são sempre reconhecidos pelos artistas como ótimos fãs) mandaram mensagens de carinho e apoio para a cantora, que chegou a ser internada. Os fãs entenderam que não foi mais uma peripécia de Gaga, ela realmente estava mal por conta da doença.

A fibromialgia

Embora as pesquisas sejam datadas dos anos 70, a doença que conseguiu abalar Lady Gaga é mais antiga e comum do que se imagina. O filósofo grego Hipócrates tem relatos da doença, descrita por ele como reumatismo das histéricas - por conta do grande número de mulheres que sofria com essa forte e crônica dor. Além disso, um estudo realizado em Montes Claros, Brasil, comprovou que a fibromialgia é a segunda doença reumatológica mais frequente - antes dela está apenas a osteoartrite - ela acomete 2,5% da população, principalmente mulheres - 40% delas entre os 35 e 44 anos.
A principal característica da doença é a dor musculoesquelética difusa e crônica - uma dor localizada em músculos, tendões, ligamentos, articulações e ossos em qualquer parte do corpo -, mas os pacientes também se queixam de fadiga, distúrbios do sono, rigidez matinal e distúrbios cognitivos. Além disso, em grande parte dos casos a dor vem acompanhada de alterações de humor, como depressão e ansiedade. Não se sabe exatamente suas causas, mas há estudos que afirmam que essas pessoas têm mais sensibilidade à dor. É como se o cérebro desses indivíduos interpretasse os estímulos de forma exagerada, ativando todo o sistema nervoso.
Os pacientes normalmente sentem dor em alguns pontos específicos do corpo. Quando há suspeita de que a pessoa sofra do “reumatismo das histéricas” ela deve identificar para o médico todos os pontos de dor e a intensidade delas, para que - dependendo muito da intensidade da dor - seja diagnosticada com a doença. Frequentemente as dores tem início localizado e em lugares como ombros, pescoço, região lombar e bacia. Com o tempo as dores vão ficando generalizadas e dificilmente os pacientes conseguem localizar o ponto exato da dor.
O tratamento da doença não ocorre apenas com medicamentos, depende também da participação do paciente, que precisará fazer atividades físicas. Estas são dosadas e específicas para o tratamento de cada paciente, que deve seguir exatamente o plano de atividades prescrito pelo médico. Além desses dois métodos, o tratamento da fibromialgia também pode acontecer por psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC) - uma terapia que busca entender como o paciente age perante aos acontecimentos da rotina e, assim tenta modificar essas emoções - que pode ajudar o paciente a entender suas reações em relação a dor e fazê-lo lidar e resistir a ela de forma mais eficaz.
Por muito tempo os acometidos por essa doença eram considerados mentirosos, pois sentiam dores em áreas não necessariamente lesionadas. No entanto, com o avanço da medicina os pesquisadores puderam perceber que o cérebro do paciente com fibromialgia interpretava  a dor, mesmo que o local não estivesse afetado.

O Rock In Rio

Após a notícia do cancelamento dos shows de Lady Gaga o Festival anunciou que, mesmo não sendo obrigatório haverá o reembolso, ele pode ser feito entre os dias 28 de setembro e 01 de novembro de 2017. Para que o reembolso seja possível o comprador deve informar o código de sua pulseira, a qual não pode ter sido usada para entrar no festival, caso o comprador não tenha retirado as pulseiras esse procedimento não será necessário - para informações mais detalhadas acesse o site do Rock in Rio.

CRÔNICA: No meio do caminho havia um ciúme

Por Matheus Lopes

Arte: Felipe Guga - @ofelipeguga (Divulgação)
Para: Giovana Proença*
      De antemão, digo: os taurinos vão se identificar. Spoiler: “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Mas a mente imagina, palpita, joga hipóteses para lá de suspeitas ao que concerne o mau: “demônio de olhos verdes”. Negamos e desnegamos – para não machucar, afinal, o taurino é dono de um vasto coração. Contudo, se a pulga atrás da orelha continua na vigília alucinada, sem exceção, damos um pulo atrás de pistas. Com ou sem extremismos. Vai do sujeito. Aliás, Shakespeare era taurino...
      Meio copo de cólera cismamos encontrar. Quem há de contrariar um taurino cheio de razão? Já passo o gabarito: todo mundo. Esbofeteando os fragmentos de uma possível razão e a outra metade vazia do copo – pode ser só água mole, afinal -, já achamos um Cássio qualquer para Geni da história – nos maus sentidos. Afinal, o quão OteloS nós somos com bobeiras ordinárias. Somos sabidos e dotados de uma devoção guerreira e heroica, e, como bom erro humano, exagerados, certas vezes até ingênuos...
      Quem nunca atirou um cascalho inocente, que atire a primeira pedra! Porém, tenha cautela: “A vingança é uma pedra que se volta contra quem atira”. A pedra pode ricochetear. Seja menos Otelo, não taque pedras, caro cidadão taurino ou não; dê flores ao seu amor, urtiga ao ciúme. Sanará qualquer dúvida sobre o fragmento enciumático. Mas ainda existem os IagoS, porca miséria!
      Terça-feira terminei a tragédia “Otelo”, quem já leu, ótimo, quem não teve essa sorte ainda: leia – principalmente se você for um taurino mais ortodoxo. A tragédia da peça é um estopim das “lutas do coração”. Naquele campo o Mouro guerreiro perdeu a batalha para si próprio. Ao escutar seu secreto algoz, Iago. As aparências enganam, caros leitores, é aquela velha história que as mamis e vovis contam, como um prelúdio roteirístico para a vida adulta, o seguinte: “cuidado com Beltrano, se ele fala mal de Fulano para você, pode apostar que você também vai estar na berlinda”. O ditado familiar é regra. Quem nunca, que atire a primeira pedra, novamente, insisto no ditado geológico-pedagógico familiar. Pay attention.
      No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento, na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. Caro Drummond, antes que eu ouse metaforizar da vida com sua deixa, peço perdão pelo compacto de seus versos. Se, como diz a internet, existem dois tipos de pessoa. Então há duas alternativas para essa “pedra”. Primeira: chute-a – esses são as mais evoluídas, dotadas de inteligência antropológica da vida mundana, com alta autoestima, sorriso colgate, e adeptos dos versos de Luka (2003) (Tô nem ai, larari, larara). Segundo: escreva um poema sobre a pedra, pense na pedra, repense, se angustie, saboreie o fel da sopa de pedras da vida; atire sem dó, tire leite de pedras, caro Sherlock.  
      Mas... os poetas abstraem e versam. Os filósofos abstraem e refletem sobre a pedra. Os espiritualizados acreditam que isso é uma situação para o crescimento interior – está aí uma boa discussão, caros -, e a maioria dos transeuntes dão nome à pedra. “Pedra filha da puta”. Geralmente chegam ao Cássio – erroneamente – ou ao Iago – astutamente - da vez. Embora seja uma cena repetida desde a Idade da Pedra, cismamos em continuar na pedreira do sofrimento eterno em busca de um suposto Miguel Cássio inocente.
      Só os poetas, dotados da sensibilidade trovadoresca e verseira, conseguem transmutar uma pedrada da vida, fundindo-a com uma espécie de midas de ouro, em uma pedra filosofal eternizada como o poema de Drummond. Embora os muitos IagoS existam de prontidão para envenenar a cachola do Mouro cidadão, nesta tragédia, vale apurar o senso crítico do amor, da amizade e etc., convertendo a pedra em uma lição de crescimento para a pedagogia-geológica dos vossos sentimentos.
      O mais guerreiro se prostra por esclarecimentos prévios à Desdêmona (a vítima de tudo, a inocência que não entende necas de pitibiribas do rolo). Conversa, conversa, conversa. Já resolveria 90% dos casos. Confia não somente nela, mas no coração. O amor destrói tudo isso, se o coração não for de pedra. Xô OteloS ortodoxos. A pedra, ou o Iago, ou o ciúme, no meio do caminho, é a peça mais encenada hoje, quando tantos e tantos mal-entendidos, por bobeira, acabam se convertendo a uma tragédia shakespeariana. Quantos e quantos casos, fantásticos, literários ou reais, mal apurados ou, pior, por um orgulho falso e fanático, não se desenrolam bem e vão dar corpo às pedradas levadas pelas donas de casa, por exemplo.
      Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Novamente, a pedra marca presença no provérbio. Já parto em defesa dos Taurinos, somos água mole! Basta sentir, ter alteridade. Ademais, nessa crônica com vastas citações, caros leitores, com muito otimismo e oportunidade, mesmo não elevados aos níveis ficcionais dos IagoS, CassioS, OteloS e DesdêmonaS, saiba ser, de forma inteligível, a água mole da parábola que te encaixa.
      Bata, mas bata até o coração de pedra ceder à pressão. Amigo que é amigo persiste, amor que é amor não cai. Ainda temos esperança nessas narrativas pedregulhosas. Não negue uma boa investigação, com água mole e esmero, seja conclusivo como Emília, não desista do rochedo. Lapide o diamante, mesmo no carvão. Caro leitor, amoleça como água, enquanto eu tentarei regar o otimismo sob pedra sobre pedra.  

*Que entende de Taurinos, Shakespeare e não dispensa um bom café filosofado pela existência. 

Crise “Padrão FIFA”

20 de setembro de 2017



Por Enzo Kfouri 

       Na última quarta-feira, em uma conferência ocorrida em Lima, Peru, entre 13 e 17/09, o Comitê Olímpico Internacional (COI) acabou elegendo pela primeira vez na história duas cidades-sede em uma mesma cerimônia, “premiando” Paris (França) com os Jogos Olímpicos de 2024 e Los Angeles  (Estados Unidos) com os de 2028. Para muitos essa mudança na escolha ou no critério de seleção pode ter passado despercebida, como algo sem muito impacto, mas na realidade o fato somente comprova a acentuada crise que a entidade vive. 
Com escândalos de corrupção assombrando a organização, sendo o mais recente relacionado à compra de votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede em 2016, o COI tenta uma alternativa para que o maior evento esportivo não suma do mapa devido à falta de interesse em recebê-lo.

Thomas Bach  ao lado da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e do prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti. Fonte: Mariana Bazo/Reuters

É verdade que não são somente as descobertas de irregularidades na instituição que acabaram com o interesse de governos e das populações de possíveis países interessados em realizar as competições, pois essa falta de vontade já vem de alguns anos para cá. Reformas milionárias, construção de estádios e arenas que não serão usados depois do evento (os chamados elefantes brancos), superfaturamento de obras, gastos além do previsto, ascensão dos ataques terroristas pelo mundo e pouco retorno financeiro são apenas alguns dos fatores responsáveis.
Paris e Los Angeles eram as únicas candidatas a sediar os Jogos Olímpicos de 2024, após a desistência de Hamburgo (Alemanha), Roma (Itália) e Budapeste (Hungria). A cidade alemã formalizou a retirada do interesse devido ao resultado de um plebiscito, que acabou apontando que 51,7% da população era contrária à realização do evento na cidade, devido à expansão da crise de refugiados sírios e à propagação de ataques terroristas na Europa.
No caso da capital italiana, o motivo para a abdicação da candidatura se deu por complicações financeiras internas, sendo irresponsável, ao ver da prefeita Virginia Raggi, realizar competições tão caras, que iriam necessitar de investimentos altos, em uma das “cidades mais endividadas e ingovernáveis da Itália”.
Já em Budapeste, a razão decisiva para a saída da disputa foi o comprometimento do COI no pós-evento em 2016, como apontam os jornais locais. As notícias e imagens das instalações do Rio de Janeiro depois dos jogos, principalmente do Maracanã, causaram um impacto muito negativo entre os políticos, que optaram, junto com a população húngara, por não sediar o evento.
Pode ser muito cedo para Budapeste falar sobre o legado da Rio 2016, afinal foi há pouco mais de um ano, mas certamente não é o caso de Atenas 2004. As olimpíadas sediadas na capital da Grécia marcaram a volta do evento para casa, ou como dizia seu slogan, “Bem vindos de volta”. Entretanto o tempo foi cruel para as instalações locais que, após uma crise que abalou o país em 2008, se encontram totalmente abandonadas e sem manutenção. O esporte tampouco se desenvolveu, mostrando que o retrospecto em 2008, 2012 e 2016 foi inferior ao do torneio organizado em casa.
Chafariz totalmente seco à entrada da antiga aldeia olímpica dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Fonte: Getty Images
Desde o processo de escolha para 1988, quando a capital coreana Seul venceu a cidade japonesa de Nagoia, o número de candidaturas não era tão baixo. Assim, com receio de que a cidade que saísse sem 2024 perdesse o interesse em concorrer pela edição seguinte, o Comitê resolveu eleger duas vencedoras, uma para a 33ª e outra para 34ª olimpíada.
A escolha de Paris para a sucessora de Tóquio foi tomada por questões históricas e logísticas. A capital da França não recebe o torneio desde 1924, havendo uma volta da competição para a cidade após um século. Além disso, a Vila Olímpica estava planejada para 2024, não podendo esperar por mais 4 anos. Com isso, será dada uma compensação pelo COI de US$1,8 bilhão para que Los Angeles espere por um ciclo olímpico a mais.
Ao que tudo indica, a instituição que rege o esporte olímpico conseguiu resolver o problema da escassez de interessados por pelo menos 11 anos e terá mais três olimpíadas para mostrar às outras cidades do mundo que vale a pena receber um evento de tal magnitude. Para isso, o COI deve repensar o processo de escolha e as exigências que faz a respeito das instalações do evento, para que os custos não sejam tão altos ao governo local. Deve se discutir também o legado olímpico, uma vez que a exemplo de Atenas 2004, sediar os jogos não significa desenvolvimento da cidade ou do esporte local. 
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